Aqui seguem álbuns indicados por músicos/musicistas da cena
de DSBM brasileira. Evidentemente, não foi possível contatar a todos, muitos
nem sequer tem redes sociais, e outros já estão afastados do meio há algum
tempo. Cada pessoa aqui indicou 2 álbuns de DSBM, o porquê de terem os citados
se devem a diversos motivos, seja por serem seus favoritos, seja por serem os
primeiros lançamentos que os apresentaram ao subgênero, seja porque foram de
grande influência para criarem suas próprias bandas e projetos.
Aqui estão algumas playlists disponibilizadas no Spotify.
Creio que seja importante ressaltar algo. Quando se fala em dar suporte às bandas/artistas, não é unicamente no sentido financeiro direto. Comprar material físico como CD's, K-7's ou vinil, camisetas e patches é importante, claro, mas seguir as redes sociais das bandas e escutar suas músicas nos serviços de streaming também é essencial, principalmente nos dias atuais. Na cena DSBM, nem todas as bandas dispõem seu material sonoro em todos os serviços de streaming, a exemplo do Spotify, ainda há poucas bandas, no entanto, elas se encontram ao menos no serviço mais prático para muitas: Youtube. O Bandcamp também é uma excelente plataforma, porque há um conjunto maior de suporte ao artista. Ainda há outros serviços como Soundcloud, Deezer, etc., e as próprias redes sociais - instagram e facebook - onde os artistas postam vídeos com suas músicas que nem mesmo se encontram em outros locais da internet. Não importa o meio, o importante é que nós, fãs, possamos contribuir com quem nos agracia com sua música, um tipo muito singular e pessoal de arte.
A arte existe para expressar e evocar, e sua possibilidade
se dá pelo conjunto artista e fã - o indivíduo que recebe aquela expressão artística.
Assim, esta é uma entrevista com não músicos e não musicistas da cena, mas sim com
quem consome DSBM diretamente: fãs. Aqui, 4 fãs do subgênero mais depressivo do
Metal falam um pouco sobre este tipo de música que tanto apreciam.
Fazem cerca de duas décadas que o DSBM surgiu, então é,
relativamente, um subgênero novo do Metal. Como você conheceu o Depressive
Suicidal Black Metal?
• Soraya: Depois de descobrir o Black Metal, fui mais fundo
e encontrei a música perfeita para mim e minha personalidade.
• Lilly: Eu desde criança já despertava um gosto pelo Rock,
daí fui conhecendo mais gêneros, então conheci o Black Metal que foi o gênero
que eu mais me encaixei e que eu mais gostei. Daí conheci meu namorado, ele também
já gostava do Black Metal e curtia as mesmas coisas que eu, e foi ele quem me
apresentou o DSBM que, de cara, eu gostei muito. Percebi que os dois gêneros se
encaixam muito com o meu eu também. Assim, DSBM passou a ser o meu segundo
gênero preferido.
• Elivelton: Conheci através do YouTube em meados de
2012/13, como indicação de vídeo de músicas parecidas com o que eu escutava na
época, ao qual eu tava procurando escutar um som mais atmosférico e profundo,
acho que o algoritmo daquela época era bem melhor do que hoje em dia (kkk).
• Bea: Sempre busquei me aprofundar na cena do Black Metal e
consequentemente não levou muito tempo até conhecer o DSBM. Não me lembro com
clareza mas acredito que Nocturnal Depression tenha sido a primeira banda que
ouvi do gênero. Aqueles gritos melancólicos logo me chamaram atenção e me fez
conhecer outras bandas bem notórias como Psychonaut 4, Lifelover, etc.
Qual foi a sua sensação ao ouvir aquela sonoridade mais
melancólica, angustiante, com uma atmosfera desesperadora, e ao perceber do que
se tratavam as letras?
• Soraya: Senti que encontrei meu recanto no espectro
musical, que poderia representar totalmente tudo o que sentia.
• Lilly: Foi uma sensação muito intensa e boa, eu sentir uma
profunda tristeza reconfortante. O sentimento de conforto ao escutar o gênero
permanece, sempre que estou triste ouço e me sinto um pouco melhor.
• Elivelton: Foi um misto de sentimentos e reflexões, quase
uma meditação, e, às vezes se paro só para escutar sem fazer outra coisa em
paralelo ainda posso sentir como naquela época. Sentimentos como uma angústia
gelada e nostalgia, e o vazio de saber que tô sozinho independentemente de
qualquer coisa são recorrentes enquanto me concentro na música, às vezes
extasiado só curtindo o momento.
• Bea: Reconfortante. Particularmente, o DSBM tem sido meu
amparo mais sincero. É o gênero que abraça os doentes. Os artistas do gênero
não se importam em fazer um som super estudado ou que chame a atenção das
pessoas na cena do Metal, e através dessa arte compartilham seu desespero, seu
desamparo mais súbito e mórbido diante de uma vida sem propósito.
Quais são suas bandas favoritas deste subgênero?
• Soraya: Funesto,
No Point In Living, Lifelover, Këkht Aräkh, Shining, Ofdrykkja, Nocturnal Depression,
Happy Days, Thy Light e Bonjour Tristesse.
• Lilly: Eu escuto todas as bandas, todas eu amo muito (rsrs).
• Bea: Amo profundamente Thy Light, Austere, Ecos Póstumos,
Angustifolia e Lifelover. Mas, recentemente tenho ouvido mais projetos do
underground brasileiro.
O Black e Doom Metal são, sem dúvidas, os gêneros pilares
para a criação do DSBM. Você costuma ouvir estes gêneros também? Se sim, quais
bandas você mais aprecia?
• Soraya: Às vezes Black, o mais clássico, mas sobretudo
Burzum e Darkthrone.
• Lilly: Sim. São inúmeras as bandas, mas algumas delas que
mais gosto: Mayhem, Darkthrone, Dark Funeral, Mystifier, Velho, Uaral, The
Cross, Inventtor.
• Elivelton: Foi escutando esses gêneros que desenterrei o DSBM
(haha). Projetos como Agalloch, Burzum, Nargaroth, Mayhem, Summoning, Darkened Nocturn
Slaughtercult, Satyricon, Nortt, Katatonia, Behemoth, Belphegor, Inquisition,
Forest of Shadows e por aí vai, tô sempre aberto a conhecer trabalhos nesses
gêneros.
• Bea: Realmente ouço muita coisa, mas algumas bandas que
levo como fonte de inspiração são Bethlehem, Katatonia, Beherit, Candlemass e
Eletric Wizard, também ouço gêneros como Blackgaze e Dungeon Synth, enfim, a
lista é grande.
Por ser um tipo de música com temas bem pesados, e até
sensíveis, não é comum muitas pessoas ouvirem Depressive Black Metal. Você
mantém amizade com outras pessoas, fora da internet, que também curtem DSBM?
• Soraya: Poucas, mas sim, três.
• Lilly: Não.
• Elivelton: Só conheci uma vez uma pessoa que conhecia o
gênero, mas não curtia tanto e isso já fazem anos.
• Bea: Sim, tenho
alguns amigos que não só curtem mas criam projetos com o gênero.
O DSBM, pelas suas temáticas, é alvo de preconceito, infelizmente,
até mesmo dentro da cena do Metal. Qual sua opinião a respeito de quem age
assim?
• Soraya: Me parece desrespeitar um estilo de música só
porque não são capazes de entendê-lo.
• Lilly: Na minha opinião, que eu saiba, o respeito é
recíproco, então se essas pessoas agem dessa forma o certo é agir também
igualmente, porque se uma pessoa (ou pessoas) não respeita o meu jeito, meu
gosto, eu também obviamente não tenho obrigação de dar respeito a quem não me
respeita, é isso!
• Elivelton: Acho triste e controverso já que toda a
proposta, de qualquer que for o subgênero, no Metal é de expressão.
• Bea: É um assunto um pouco complexo, mas, resumidamente,
os artistas do gênero buscam expurgar ao máximo sua angústia e dor da
existência, fazer dessa arte um motivo pra ainda insistir como um indivíduo. E
por outro lado, todos sabem que sempre existiu pessoas ignorantes e que
banalizam qualquer dor que não seja a de si mesmo. Mas acredito que a maioria
que se identifica com o gênero já sabe disso e não se importa com o que dizem,
existem problemas maiores e que merecem atenção.
Não é comum bandas deste subgênero realizarem apresentações
ao vivo. Mas, se fosse possível um dia, existe alguma (ou mais de uma) banda de
DSBM a qual você gostaria de ir a um show?
• Soraya: Eu adoraria, especialmente Lifelover, também gosto
muito de Thy Light.
• Lilly: Amo todas as bandas, então eu ia adorar ir em um
show de cada uma, todas são muito boas!
• Elivelton: Se fosse possível um festival só de DSBM seria
muito foda.
• Bea: Como a maioria, adoraria ir num show do Psychonaut 4
e do Thy Light, agora que o Paolo e Alex tem feito apresentações.
Considerações finais.
• Soraya: Eu realmente aprecio muito que existam plataformas
para os fãs do DSBM se encontrarem, conhecerem novas pessoas e compartilharem
bandas.
• Elivelton: Agradeço pelo convite para expressar a minha
gratidão a esse subgênero que eu gosto tanto. E por todo esse trabalho incrível
que meu amigo Lúgubre vem mantendo em suas páginas por esses anos que o conheço,
cultivando sempre um ambiente de respeito, informação, divulgação, expressão e
bom humor.
• Bea: Conselho: ouçam Narcotic Metal. E deixo meus
agradecimentos a página que mais tem dado suporte ao gênero e seus fãs!
*Soraya é nossa seguidora residente em Galiza, Espanha.
Quando se fala em Depressive Suicidal Black Metal, Silencer
é comumente a banda mais citada, possivelmente, devido a figura impactante de
seu vocalista Nattramn, mas, para além da parte visual chocante associada a
ele, o motivo real é que esta banda trouxe uma obra-prima em seu álbum de estreia e que soava muito diferente do que era encontrado em bandas de Black
Metal na época.
Formada inicialmente pelo guitarrista Leere, no ano de 1995,
Nattramn se juntou à banda alguns meses depois e ela se consolidou em um duo.
Em 1998 gravam uma demo da música 'Death - Pierce Me', evidenciando os vocais
agonizantes e afogados em um profundo sofrimento por Nattramn, e a melancolia
muito bem trabalhada sonoramente por Leere. Esta música veio a se tornar o nome
do primeiro e único álbum da banda, lançado em 1 de abril de 2001, e que teve a faixa-demo
incluída em uma nova versão. Este álbum é realmente um material sonoro bastante
difícil de digerir, no entanto, é um dos essenciais do DSBM e um dos poucos que
se tornaram amplamente conhecido nesse meio.
• Death - Pierce Me: A música homônima ao álbum inicia-se
com um riff suave e cativante onde engana o ouvinte que desconhece o que está
por vir. O ponto alto é justamente quando Nattramn surge com seus lamentos
rasgando a garganta e implora pela morte. A parte instrumental é muito bem
encorpada, com belos riffs e solos de guitarra, marcantes levadas de bateria e
linhas de baixo que, embora caminham por vias uniformes com os acordes de
guitarra, são bastante expressivos. A finalização dessa música, bem como de
todas as outras do álbum, é algo muito interessante, fecha-se de forma precisa.
• Sterile Nails and Thuderbowels é a canção da banda que
ganhou maior destaque e, sem dúvidas, é esta a música que evidencia a sublime
musicalidade de Leere, afinal, se não fosse por ele, provavelmente, este álbum
não teria entrado na história como um clássico do DSBM. Ele fornece uma
majestosa atmosfera para as lamúrias atormentadoras de Nattramn, que se
estivesse vociferando suas dores sem música, obviamente, não soaria como
música. A união musical desses dois é uma expressão sincera de como a boa
música pode surgir quando há fidelidade naquilo que se quer transmitir.
• Taklamakan é, geralmente, a que mais atrai as pessoas
porque, supostamente, Nattramn estava se cortando severamente e engasgando-se
durante a gravação dela. É possível ouvir esses sons de forma nítida. Os riffs
de baixo que abrem a canção também são bastante marcantes e mantém o ouvinte
atento, apenas aguardando o que está por vir. Logo a música explode e,
dolorosamente, os traumas existenciais de Nattramn eclodem junto. Os riffs de
guitarra são simples, mas muito bem inseridos e se complementam com a bateria
bastante rápida. Nessa música Nattramn vai ao extremo, como se estivesse em seu
nível máximo de insanidade.
• The Slow Kill In The Cold parece ser um contraste à faixa anterior
e, com um fluxo lento, suave e melancólico de sintetizador, conduz o ouvinte a
uma certa calmaria. Mas, antes mesmo do ouvinte poder imaginar uma paisagem
menos sufocante que fôra criada por esta faixa, é novamente lançado às
angústias lacerantes de Nattramn que se seguem pela faixa seguinte.
• Shall Lead, You Shall Follow mantêm a rapidez rítmica incessantemente.
É uma viagem sonora em velocidade, mas sem perder o ar desesperador que paira
sobre todo o álbum.
• Feeble Are You - Sons Of Sion encerra o álbum e é uma canção
executada apenas no piano trazendo consigo a sensação de uma certa calmaria
depois que não existe mais nada a ser destruído, pois tudo está morto,
terminado, encerrado.
O que tornou a banda conhecida no meio do Black Metal foram
os vários rumores, suposições e lendas que se mesclaram a eventos reais
ocorridos com Nattramn. Nattramn não queria apenas expressar sua dor e angústia
através de suas letras e seus vocais, ele queria que a música soasse o mais
real possível para que o ouvinte pudesse sentir quão desesperado ele estava. E
ele decidiu se automutilar antes e durante as gravações de cada faixa. Seus
gritos eram de extrema dor, uma mistura do que ele estava sentindo fisicamente
naquele momento junto com as dores mentais que ele já arrastava por anos.
Gritos, urros, choros e sons de ânsia de vômito e engasgamento podem ser
ouvidos nas músicas. Esses detalhes incomuns somaram para que os críticos
descreverem a música de Silencer como ruídos tolos e sem graça, mas, quando se
olha para as características estéticas que são tecidas a partir da
subjetividade emocional complexa de Nattramn e Leere, fica claro que todos os
instrumentos, as falas, lamentos, urros e gritos sobem do mais profundo poço
onde habitam os seres massacrados pela existência humana. Pouco tempo após o
lançamento do álbum, Nattramn foi encaminhando para um hospital psiquiátrico em
período integral de internação, e a banda encerrou atividades após esse evento.
Independente dos vários boatos, inverdades e datas imprecisas, o fato é que em
suas músicas Nattramn expressou todo o seu desespero e sua insatisfação para
com a vida e com o mundo, isso de maneira bastante direta. Ele enfatizou a
natureza de seus gritos estridentes, de alguém que estava sofrendo e sendo
atormentado incansavelmente. Uma foto de Nattramn acabou sendo disseminada
junto do álbum e, nela, ele se encontra com uma máscara ensanguentada e com
bandagens manchadas de sangue nas mãos, nas quais aparecem pés de porco
amarrados. Propagou-se que Nattramn se torturava durante as gravações das
músicas e acabou amputando as mãos para substituí-las pelos pés de porco, mas,
o que ele fez, de fato, foi amarrar com as bandagens os pés de porco às mãos.
Mesmo vinte anos após seu lançamento, ainda há quem tache este álbum como uma
peça horrível e que deve ser esquecida, como algo que deve ser retirado do
Black Metal - a banda sempre disse fazer Black Metal e nada além -, mas não,
não há motivos para essas duras críticas quando se analisa a banda, o álbum, as
expressões ali colocadas sem vestimentas. Essas melodias foram arrancadas de
momentos altamente emocionais e genuínos. Elas se uniram para formar uma camada
crua, porém reveladora e intrigante. As letras são muito pessoais e/ou
confessionais, que Nattramn escreveu para exorcizar seus demônios mais
terríveis. Isso pode ser lido, escutado e mesmo visualizado - em paisagens
mentais - como um vislumbre de momentos específicos da vida de um homem
atormentado pela dor, pela loucura, pela existência cruel onde o sofrimento é
imensurável. Há muita crueza e mensagens diretas em suas composições, mas,
também, há espaço para abstrações. As letras e as melodias são muito mais emocionais
do que se pode enxergar de início, e há imagens subjetivas e extremamente
pessoais que não se pode encontrar na maioria das músicas de outras bandas do
gênero. Nattramn e Leere uniram a profundidade dolorosa e escura de si mesmos,
do sofrimento pessoal, e sangraram isto tudo em um estúdio de gravação.Não existiu um objetivo, usando essa
linguagem direta ou abstrata, de evocar algo, mas sim de expurgar. Expurgar
tudo que corroía internamente e sangrava para além da carne. Tanto é que este
álbum não pode ser tido em meio termo, por isso, ou se gosta ou não se gosta
dele. O ouvinte vai defini-lo de acordo com o que se deseja capturar dele e de
como pode sentir empatia por estes ou quaisquer outros músicos, pois as músicas
deste álbum se manifestam como instantâneos pessoais de estados emocionais
extremos e narrativas sombrias que procuram falar em uma linguagem de angústia,
dor, desespero, que pode ser atraente ao ouvinte porque este pode ou não ter
vivenciado momentos semelhantes.
Para o Depressive Suicidal Black Metal este é um álbum de
extrema importância e que agrega, definitivamente, aos álbuns onde a dor é
muito palpável e para além de meras impressões.
Obs: Vale reforçar que as imagens que circulam na internet de Nattramn sem bandagens, não é o Nattramn do Silencer, mas sim Rikard Bjernegård, da banda Frostrike. Ele também usou o pseudônimo Nattramn em sua banda, e, como ela também é uma banda de Black Metal sueca, a internet fica vinculando ambos como se fossem a mesma pessoa, e, por consequência, muitas pessoas continuam propagando esse erro até hoje.
Com o intuito de dar suporte às bandas da cena brasileira de DSBM, nós estamos novamente trilhando o caminho das compilações. Nesta etapa, bandas da cena se juntam cada uma com uma canção que resulta em um conjunto de belíssimos e Depressivos Hinos Suicidas. A arte ficou por conta de Helder Ribeiro, e completa o conceito proposto para esta série de compilações.
Pensar sobre nossa existência sempre nos leva a uma dura verdade: a morte. Inevitável, ela não poupa a ninguém, mas, e quando o indivíduo a deseja? Diante do fardo imposto pela vida, chega-se a um ponto onde a dor sobrepõe a chama de vivacidade, alegria ou qualquer outra sensação de acalento. Por mais que se busque um pouco de alívio, nada parece cooperar para este resultado. Assim, os dias seguem, monótonos, sem nada de novo - embora a dor, esta sempre consegue se assentar mais e mais nos mínimos espaços que encontra. Absorto, em sua profunda introspecção, o indivíduo se depara com a única certeza da vida: Todos Os Caminhos Te Levam A Morte.
Depressivos Hinos Suicidas - Vol. I - Todos Os Caminhos Te Levam A Morte
No ano de 2020, eu (Lúgubre) e Mad participamos de um
podcast distribuído no Spotify. Atualmente ele foi encerrado, mas, na ocasião,
era feito por um grupo de amigos que falavam sobre música em geral. Cada
episódio abordava um gênero musical e, com frequência, haviam músicos de
diversas bandas dentro do Rock e Metal que eram convidados a fazer parte do
bate-papo. Foi uma surpresa para mim e para o Mad tal convite, visto que o DSBM
é um tipo de música desconhecido. No entanto, aceitamos o convite, justamente,
por ser um tipo de música onde há pouquíssima informação sobre, mesmo na
internet. Assim, falamos um pouco sobre este subgênero que muito apreciamos. É
evidente que num único episódio, de cerca de uma hora, seria impossível falar
do DSBM em toda sua abrangência. Então, foi algo bem resumido, mas procurando
passar por pontos importantes. Tanto eu quanto o Mad temos nossas limitações na
dicção, mas, ainda assim, engolindo a ansiedade, participamos. Aqui segue nossa
participação como entrevistados de forma escrita. Não está na íntegra. No final
do texto estará disponível o áudio completo para quem se interessar em escutar
toda a entrevista.
Entrevistador 1: Pra começar a falar de DSBM, trago a teoria
de Durkhein. Durkhein aborda o suicídio como qualquer caso de morte que
resulta, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo, que seja
executado pela vítima e que ela saiba que o fim seria esse resultado: a própria
morte. Ainda, no livro de Durkhein, ele explana outros assuntos que tem relação
com o suicídio, como a regionalização. Como em países mais frios, com noites
mais longas, dias mais escuros, tendem a ter uma taxa mais alta de suicídio.
Vocês conseguem enumerar algumas bandas de DSBM que refletem isso nas letras?
Mad: Até a cor, a cor do ambiente, mais escuro, acinzentado,
pode influenciar no suicídio. O Lúgubre escreveu algo sobre isso e pode falar
melhor sobre.
Lúgubre: Podemos usar a América Latina mesmo como
comparação. Todos os países daqui, apesar de não ter essa relação com o frio -
a não ser o Sul do Brasil, mas cujo é um frio suportável-, tem a questão da
pobreza e desigualdade. E isso também influencia no suicídio. Claro, pessoas
ricas ou milionárias podem ser alvo do suicídio, no entanto, a pobreza pesa
bastante nisto, sem dúvidas. E isso influencia aqui, no caso, dos países da
América Latina. No caso dos países nórdicos, especialmente na Suécia - que
acredito ser o berço do DSBM -, tem esse fator do frio, e também do crescimento
das cidades. Há ainda a questão dos jovens que se sentem perdidos. Na Suécia,
apesar de ser um país rico, com uma taxa alta de desenvolvimento, há uma
solidão entre os jovens. Também, não há muito isso de falar sobre o futuro.
Então os filhos têm que "se virar". E isso influi muito sobre os
adolescentes. Muitas bandas como Lifelover, Apati e Ofdrykkja falam disso em
suas letras. Sobre concreto bruto - a cidade com suas construções crescentes -
que tira a visão da natureza. E, também, sobre um sufocamento que recai sobre a
rotina de ter que estudar, trabalhar e sobreviver. Não há espaço para algum
lazer. Então acabam recorrendo às drogas, lícitas e/ou ilícitas, medicamentos...
e tudo isso reflete nas letras. Todas essas bandas, chamadas de "DepressiveRock/Narcotic Metal", trazem essa questão à tona. Ainda, sobre essa
questão de regionalização, o Japão é outro exemplo. Lá também tem muitas bandas
- algumas que nem mesmo usam o termo DSBM, mas abordam todos esses temas, já
que lá também tem um índice alto de suicídio. Um fator que pesa é este de ter
que ser o melhor, ter uma vida bem-sucedida, a qualquer custo. E, o
interessante, é que as bandas de cada país expõem aquilo que é mais pesado na
sociedade que a pessoa está inserida. No DSBM isso é muito evidente, expor o
que o indivíduo sente de acordo com a sua própria realidade.
Entrevistador 1: Podemos começar a falar do início do DSBM.
A primeira banda, de fato, foi Silencer ou Lifelover?
Lúgubre: Traçar o início de gêneros musicais é difícil; de
subgêneros é ainda mais. O que ocorre é que na década de 90 já existiam muitas
bandas que faziam uma sonoridade Black Metal, misturando com o Ambient, com o
Atmospheric, até com o Death Metal, como o caso do Malvery.
Mad: E muitas eram chamadas de Black Doom.
Lúgubre: Todas as bandas da década de 90 - eu costumo
rotular como "Proto-DSBM"-, embora não usassem o termo DSBM, todas já
abordavam os temas que vieram ser comuns no DSBM: O desejo pela morte, o
suicídio, os transtornos mentais. Bandas como Xasthur, fundada por Malefic e Malvery
- banda canadense onde o vocalista expôs tudo o que ele estava sentindo no
momento da gravação, e que veio a lançar um único álbum, e antes de chegar a
ver o lançamento deste álbum o vocalista cometeu suicídio - são exemplos. Então,
essas bandas da década de 90, Xasthur de 1995, Malvery de 1993 e Abyssic Hate
de 1993 já estavam moldando o que viria ser o Depressive Suicidal Black Metal.
O Silencer surgiu em 1995, mas, somente em 1998 Nattramn entrou na banda, e
então começou a compor e se expressar. O Silencer é citado como a primeira
banda porque, em 2001, lançaram o álbum que de fato mudou a cena naquele
momento. É uma banda do tipo que não existe meio termo: ou é boa ou não é;
quando alguém escuta pela primeira vez. Muitas pessoas, inclusive, gostam de
exaltar apenas o instrumental e criticar os vocais de Nattramn. Mas a banda é
uma dupla, e talvez não existiria a banda se não fosse a perfeita junção de
ambos os envolvidos.
Entrevistador 2: Foi o Nattramn que começou com o vocal mais
gritado?
Lúgubre: Com esse tipo de vocal, sim. Enquanto os vocalistas
tradicionais de Black Metal faziam um vocal agudo e mas odioso, ele dosava a
dor literal com o ódio, resultando num vocal desesperador. E ele não se importava
em como cantar, apenas deixava sair de forma espontânea. Foi uma forma que ele
optou por cantar e se expressar. Embora eles fizessem Black Metal, e nunca
tenham reivindicado o termo DSBM pra si, eles também não eram bem aceitos no
meio do Black Metal. Mas, haviam algumas pessoas que já estavam começando a
recebê-los e estavam se sentindo expressadas pela banda.
Lifelover surgiu em 2005, não foi a pioneira do DSBM, mas
foi uma das bandas importantes no subgênero. Jonas e Kim fundaram a banda e
dosaram vários elementos, como a levada Pós-punk e Black Metal, o que resultou
em um contraste interessante. Músicas dançantes, mas com letras falando de
temas mais pesados e tabus, com uma dose de sarcasmo e ironia.
Entrevistador 2: Então o Pós-punk influenciou o DSBM?
Lúgubre: Influenciou mais essas bandas que são chamadas de
"Depressive Rock/Narcotic Metal" como Lifelover. Anos depois, Apati,
e, quando Obehag morreu, Pessimistem formou a Ofdrykkja. E muitas outras foram
surgindo e seguindo nessa linha com influências do Pós-punk. Podemos dizer que
dentro do próprio DSBM tem algumas vertentes,
como essas bandas suecas que se focaram numa sonoridade até meio dançante, em
contraste com temas mais pesados. A sonoridade é menos "suja" também,
comparada com o DSBM das primeiras bandas que seguiam mais pro Black Metal. Essas,
da cena sueca, se focam mais em temas como a melancolia urbana, adicção de
álcool e outras substâncias, autoagressão e relacionamentos interpessoais.
Entrevistador 2: E o DSBM é algo bem íntimo, né? Algo mais
da pessoa mesmo.
Lúgubre: Sim, é algo bem pessoal. Claro, a partir do momento
que você expõe isso, como na internet, há a consequência de alguém escutar. Mas
o objetivo é expressar algo seu para você mesmo. Uma dor sua que você tenta
manifestar através da música; isso define o DSBM. Por isso é muito comum as
bandas serem de um só membro. Geralmente é uma pessoa solitária que tenta expor
suas emoções.
Mad: Por isso é até difícil de digerir o gênero e tornar ele
popular, pois é uma dor tão pessoal, algo tão íntimo que você não espera que
outra pessoa escute e entenda o que você queria passar, de uma forma tão
sincera. O DSBM é algo que você está fazendo mais pra você do que para os
outros. É a sua válvula de escape, é dizer o que você sente, sem se preocupar
com a opinião dos outros. Você faz por você, para o seu bem. Por isso, também,
é difícil de ter uma banda de DSBM com 1000 visualizações. Você faz com intuito
de só você escutar, ou nem mesmo você escutar depois. Você lança para dizer pra
si mesmo que expôs aquilo pra fora, e não para ficar famoso com aquilo. É uma
válvula de escape apenas.
Entrevistador 2: Tem pessoas que vêem o DSBM como
romantização da tristeza, do suicídio. Mas não é isso. É mais algo da pessoa
mesmo querendo se expressar sinceramente, né?!
Mad: Até porque não faz muito sentido, quem em sã
consciência se vangloriaria de ter depressão, de pensar em se matar? Não faz
sentido. A gente que está nesse meio se sente destruído por passar por essas
coisas, e não deseja isso a ninguém. Daí ver alguém de fora dizer que estamos
romantizando o suicídio é o que deixa a gente ainda mais triste.
Lúgubre: E as pessoas se baseiam isso em outros gêneros de
música. Por exemplo, há gêneros que falam da tristeza, mas é da tristeza em si,
não de coisas pesadas como é característico do DSBM. O DSBM vai a fundo,
falando de coisas que é até difícil colocar em palavras, e por isso se une a
vocais desesperados. É algo desesperador e que você não molda, não pensa em
como vai cantar, apenas sai de forma sincera ali no momento.
Entrevistador 2: Qual a banda pioneira de DSBM no Brasil?
Lúgubre: Pioneira cantando em inglês é Thy Light, mas eles
nunca se colocaram como DSBM. Desde o início já caminhavam com o Atmospheric
Black Metal. Já era um som mais fácil de digerir, e por isso teve um alcance
maior. Cantando em português existem muitas bandas que surgiram, e por isso não
tem como identificar apenas uma. Neblina Suicida, Lamúria Abissal e Funesto
estão entre essas primeiras.
Lúgubre: Essas bandas também eram distintas, cada uma
seguindo com suas próprias características dentro do DBSM.
Entrevistador 2: Tem bandas brasileiras que vêm chamando a
atenção de vocês, atualmente?
Mad: Frio Insólito, que lançou singles entre 2016 e 2017, e
agora em 2020 lançou seu primeiro EP. Abismika, que vem fazendo um trabalho excelente.
E Morte Rubra, onde o vocalista e letrista Alan, para mim, é o melhor que
surgiu nos últimos tempos dentro do Black Metal em geral.
Lúgubre: Nattag, que é de Ponta Grossa, Pr, que fez algo
interessante, uniu o Noise ao DSBM, algo meio experimental e ficou um som muito
bom. A Unguilty, que é de Curitiba, e tem uma sonoridade flertando muito com o
Doom, somando linhas de piano, passagens mais limpas e mais pesadas. Praticamente
todos os dias tem bandas novas surgindo, justamente para a pessoa poder se
expressar e, por consequência, também tem muitas pessoas que buscam por sons
assim para escutar. E quem escuta, muitas vezes, é influenciado a criar seu
próprio projeto também.
Mad: Rolou uma espécie de boom entre 2014 a 2016 por aqui.
Depois muitas bandas foram encerrando, algumas devido ao integrante cometer
suicídio. Então em 2019/2020 começou a renascer a cena e muitas bandas novas
foram se formando.
Entrevistador 2: Tem outro derivado desse subgênero, do
DSBM?
Lúgubre: Então, algumas bandas suecas se focaram mais na
melancolia urbana. Muitas tinham membros ainda adolescentes quando foram
formadas e, com isso, como não conseguiam se expressar de outra forma, eles colocavam
tudo na música. Essa linha é chamada de Depressive Rock/Narcotic Metal. Há
bandas que tem elementos mais atmosféricos como Woods Of Desolation, ColdWorld,
Austere, aqui no Brasil As Long As I Can (ALAIC), Entardecer e Rope, por
exemplo. Tem outras flertando mais com o Doom como as brasileiras HatefulAgony, Allonair e a Unguilty. E tem as bandas que já partiram para o Post Black
Metal, com um som mais limpo, com guitarras mais limpas e com distorções menos
pesadas como as brasileiras Gray Souvenirs, Help, Gulag, Depht. Essas últimas,
inclusive, surgiram no DSBM, mas com um som mais pro Post Black Metal - também
chamado de Blackgaze - no decorrer dos seus lançamentos. Isso ocorreu porque o
DSBM meio que abriu as portas para essa galera, já que o Blackgaze também é discriminado
dentro do Black Metal, por soar mais limpo, mais melancólico e menos pesado, e
também por ser algo novo no meio. O DSBM, à propósito, é um subgênero bem novo
ainda.
Mad: O Lúgubre e eu organizamos compilações com bandas
exclusivamente nacionais. Fazemos uma espécie de curadoria, e vamos atrás das
bandas.
Lúgubre: Eu gosto muito das bandas que cantam em português,
isso para qualquer gênero. Mas aqui há um grande preconceito com bandas que cantam
no nosso idioma nativo. No DSBM, eu aprecio muito isso porque é algo muito
difícil cantar no próprio idioma, falar de algo seu, tão pesado. Outras pessoas
daqui, que escutarem algo que você canta, vão compreender de imediato. E gera
uma certa vergonha, digamos assim, no sentido de ser algo tão pessoal seu, e
que outra pessoa pode vir a ouvir e até rapidamente te criticar, como
infelizmente ocorre, algumas vezes. Logo que conheci o Mad começamos a pensar
nisso de unir bandas em uma compilação, com a intenção única de dar suporte às
bandas, que talvez não teriam algum alcance sozinhas, justamente pelo pouco
alcance do DSBM em geral. Nessas compilações, bandas novas e as mais antigas da
cena se somaram. Tem muitas bandas boas no Brasil e nossa intenção é levar isso
às pessoas que curtem esse tipo de música, para não ficar aquilo de só escutar
bandas de outros países e ignorar o que temos aqui também e com boa qualidade.
Entrevistador 2: Tem uma curiosidade que é um Split do Happy
Days com o Deadspace, onde o A. Morbid canta em espanhol.
Lúgubre: Outra curiosidade é que há uma demo, do início, do
Happy Days onde o A. Morbid canta em norueguês. Ele fez isso como uma homenagem
às bandas que curtia, e eram da Noruega. E na época, também, ele estava aprendendo
esse idioma e quis testar em suas primeiras músicas. O interessante do espanhol
é que tem um alcance muito grande no DSBM. Talvez o público maior do DSBM
esteja em países onde a língua espanhola seja nativa. Basta olhar comentários
em vídeos e postagens e ver a quantidade de pessoas desses países comentando.
Há uma grande veneração, inclusive, à Nattramn, por esse pessoal do México e de
países aqui da América do Sul.
Mad: A cena latina é a mais ativa de todas. Tem muitas
bandas e o público consome bastante. Rola, com muita frequência, parcerias
entre essas bandas aqui da América Latina. É muito comum ver uma banda
mexicana, por exemplo, com algum integrante brasileiro.
Entrevistador 2: Eu não tinha essa ideia. Acreditava que
eram mais países nórdicos que tinham um maior alcance.
Lúgubre: Isso é um ponto interessante. Porque muitas pessoas
não enxergam isso que ocorre aqui mesmo, e por isso a ideia da compilação.
Acaba sendo uma forma da cena conhecer mais essas bandas e valorizar, além do
fato das que cantam em português você conseguir compreender o que está sendo
cantado naquele momento; é algo mais familiar e direto. Isso também é muito
gratificante para nós. Receber mensagens nas páginas de alguém dizendo
"olha, essa é minha banda, meu projeto e tal", isso é o que nos
mantêm seguindo cooperando, de alguma forma. É uma troca. Damos suporte às
bandas e elas nos presenteiam com sua arte, que tanto apreciamos. E o DSBM é
algo que nos faz seguir sobrevivendo pelos dias também, já que nos
identificamos com o que é expressado, e que é tanto negligenciado pela
sociedade.
Mad: Ultimamente tem sido mais raro vermos as bandas fazendo
Split. Então isso das compilações é algo que junta as bandas também. Já
soubemos de membros que se conheceram devido a elas e criaram outras bandas e
projetos. Então é gratificante isso.
Entrevistador 2: E
sobre esse papo desanimador de dizer que a cena está acabando, ou que não tem
mais nada de bom?
Mad: É o mesmo papo de dizer que o Rock já morreu. É
realmente desanimador.
Lúgubre: Eu vejo isso como comodismo da galera. É fácil você
pegar uma banda do passado, como Black Sabbath ou Metallica, e dizer que não há
nada de inovador e bom hoje como era naquela época. Há milhares de bandas
surgindo a todo instante e fazendo um som muito bom. Independente do gênero ou
subgênero. Mas o comodismo da galera é alto, e preferem fingir que não há nada
que presta hoje. Se prendem ao passado para não conhecer algo novo. A cena do
Rock e Metal está cheia disso, e acaba até desestimulando outras pessoas no
meio, mantendo um ciclo de achar que não há nada de bom nos dias atuais.
Mad: É até uma preguiça de pesquisar. Essa galera não vai
atrás e por isso diz que a cena morreu, ou "se não chegou até mim, então
não existe". Nós, com a página, tentamos sempre dar foco às bandas novas.
Focar nelas. Porque não faz muito sentido você divulgar o que todos no meio já
conhecem.
Entrevistador 1: Finalizamos a entrevista com indicações de
bandas. Lúgubre, o que você indica?
Lúgubre: Indico a banda Alivium, banda brasileira com vocais
femininos. E quero dizer que acho muito importante a presença feminina no
Metal, e no DSBM não poderia ser diferente! Por enquanto essa banda tem apenas
uma música, chamada Vazio, mas em breve a banda lançará um álbum. A vocalista
usa o pseudônimo de Das Irrlicht.
Entrevistador 1: Muito bom! Meu querido Lúgubre vem aí para
mostrar que nem todo sulista é pau no cu. E você, Mad, o que indica?
Enquanto o verão tenta soprar sua brisa ardente através do
clima frio e chuvoso do leste do Paraná, eu busco por melodias que possam
trazer um alívio gélido, ainda assim quente o suficiente para me lembrar que a
existência humana consiste de algum equilíbrio entre os opostos. Sim, estou
falando de Unguilty, banda de Depressive Doom Metal oriunda da capital mais
fria do país: Curitiba. Tão fria quanto a cidade, são as melodias executadas
por F. R. - Felipe Ravanello -, o único integrante da banda. Mas, engana-se
quem pensa que o fato de ser um só membro faz desta banda algo limitado. Ela expande-se
para além dos horizontes. Com seu talento nato, Felipe põe na balança
cadenciados riffs de guitarras, linhas melancólicas de piano, baixo nítido e
envolvente do início ao fim e bateria marcando uniformemente cada passo
melódico das faixas. Seus vocais graves fecham a obra, criando uma atmosfera
soturna, densa e imersiva. Ainda, há passagens com vocais limpos, onde cada
palavra proferida ressoa majestosamente, completando, assim, as imagens
lamentosas criadas em Gray, o 3º álbum de Unguilty. A parte lírica de Gray
ficou por conta de Melissa Winter, que belissimamente expressa uma gama de
emoções a cada linha. Uma poesia desesperada, agonizante, em desabafos de
alguém que busca ferozmente pela luz. De alguém que foi tomado pela escuridão,
cegando tudo à sua frente. A produção, gravação e lançamento do álbum fica à cargo do selo Eternal Awake Records. Embora não seja um álbum conceitual - de um modo e outro
as faixas se relacionam umas com as outras -, seria um sacrilégio não
fazer uma parada por cada uma delas. Então, embarque comigo para essa viagem
pelas trilhas da desolação.
1. Asleep With The Midnight Sun - Com um suave riff de
guitarra entrelaçado com sons de água corrente, que cativa de imediato, a faixa
vai crescendo de forma precisa a cada segundo. Acordes suaves, mas, já
expressando uma melancolia que prepara para o peso que chega em seguida. Os
riffs distorcidos são muito bem encaixados, contrastando com os vocais
vigorosos e que exalam o distanciamento da alegria. A letra remete a perdas,
abandono, distanciamento. Quando tudo aquilo que trazia uma chama de vida se
apaga, o que podemos fazer? Apenas se lembrar. Mas, as boas lembranças podem
ser mais dolorosas que apaziguadoras. E a dor segue corroendo internamente. F.
R. consegue trazer as emoções à tona de uma forma muito palpável, ainda,
mantendo esmera sintonia com cada instrumento que executa. Assim como as demais
faixas, ela ultrapassa os 5 minutos, mas é dosada para que não se torne
monótona, pelo contrário, há partes mais rápidas que se encontram com as mais
calmas e melancólicas, alicerçadas com uma linha de piano que agrega muito mais
tristura ao panorama já densamente triste.
2. The Abyss And The Pendulum - A lentidão sonora,
característica da banda, traz uma imersão muito maior ao ser evocada logo nos
primeiros instantes desta faixa. O sintetizador cria uma imagem lutuosa impossível
de se desvencilhar. A bateria acelera o ritmo, mas ainda é lenta o suficiente
para que o ar fúnebre permaneça. E, é justamente o que a parte lírica expõe.
Quando você não consegue enxergar nada mais a sua frente, quando a escuridão
põe uma venda diante de ti, então, para onde ir? A única alternativa, já
plantada e regada no decorrer do tempo, se torna um arvoredo em sua mente.
Perante o abismo, o corpo, deliberadamente, cai. Não é preciso, sequer, dar o
impulso. O cansaço, penetrando dia após dia até os ossos, é suficiente para que
o corpo apenas busque seu fim por si só. A mente cessa. Não há porquê resistir.
A resignação se assenta para que não haja mais luta alguma, afinal, não há mais
físico e mental aptos para qualquer luta que seja. O não existir paira pela
eternidade.
3. Coexistence - A canção que traz uma calma, após as duas
primeiras mais densas, não deixa de ser tristemente bela e profunda. Com vocais
limpos, F. R. recita a dor da partida. Nesse ponto, não é mais a dor de quem
partiu, mas sim de quem ficou. O pesar que parece nunca vir a se tornar
saudade. Perder alguém é uma dor infindável, que, talvez, seja transformada -
externamente - em saudade, em algum momento da vida, mas, a dor em si, esta
ainda tem seu assento dentro de cada um de nós. O instrumental é imensamente
marcante, com riffs de guitarra que emergem conduzindo a música e levando-a
cada vez mais ao lago emocional onde a tristeza preenche incansavelmente. Mesmo
nas partes mais rápidas, os riffs seguem acentuados. A saída da velocidade para
a sonoridade mais lenta se faz com primor, não há quebra sonora, o que torna a
faixa integral com todas suas partes singulares.
4. Gray - O piano, que é o instrumental característico em
sonoridades do Depressive Doom, se faz presente aqui logo no início. Com uma
bateria cadenciada, ele ressoa lastimavelmente enquanto os vocais limpos são
proferidos. As linhas de guitarra, como de praxe, são a guia da desolação. O
baixo, aliás, instrumento de maior familiaridade de F. R. (custei a usar esse termo,
visto que o músico é multi-instrumentista nato) tem sua marca notavelmente
acurada, não só nesta, mas em todas as faixas. A música-título do álbum fala
sobre o não-sentir. Quando o indivíduo se encontra morto, em emoções, sentidos e sensações. A paisagem
é sempre acinzentada, não há vida, cores, nitidez. As vistas se ofuscam junto à
natureza funesta que rodeia a tudo. Estar morto, mas, ainda assim, não estar. A
consciência de si, este é o inferno real.
5. Hill House - Seguindo Gray, esta faixa também traz uma
suave introdução com piano, acordes limpos de guitarra e vocais imersivos e
limpos se abrindo às lembranças, anseios e saudade. A saudade, que outrora
sobrecarregava como luto, aqui se faz corpórea. O desejo de poder aliviar as
dores de quem estimamos, de reviver o que tivemos, os momentos, os afetos
compartilhados, os silêncios. A música segue mais marcante, em sua lentidão
expressiva, penetrante, com a bateria agregando o peso exato para chegar ao
fundo das emoções mais secretas de nosso âmago. A ambientação, inclusive, é imprescindível
para isto. O ar enevoado, abraçando em todas as direções, parece nos levar a um
vendaval. Não um vendaval hostil, mas sim aquele preciso, na exata turbulência
para que cada partícula do som se mescle ao nosso próprio corpo e mente, talvez,
no alto da colina de nossos sonhos soterrados.
6. Rest - Após dores, angústias e pesares, o descanso chega.
Esta faixa é toda instrumental, mas, o fato de não ter canto não torna ela
inexpressiva. Ela fala, ela ressoa liricamente, ela transmite muitas mensagens,
sem nada dizer. Guitarras, baixo, bateria e piano fazem Rest bradar pela
vontade de repousar, respirar, encontrar um resquício de serenidade. Do início
ao fim, ela consegue colocar isto de forma tangível.
7. I - The Garden Of My Suicide - Embora, à princípio, não
seja um álbum conceitual, aqui inicia-se o primeiro capítulo de 3 canções que,
por que não dizer, resultam em uma epopeia. Desde a primeira faixa até aqui, as
emoções mais obscuras foram trazidas à tona. Não é diferente agora, no entanto,
elas estão ainda mais afundadas no desamparo de uma alma que chegou ao seu
final, o final por suas próprias mãos. Além da visão enegrecida no nada, as
dúvidas de o porquê daquilo, pairam, remoem, disparam sem cessar. A tormenta
aumenta, toma proporções inconcebíveis. F. R., com sua voz vigorosa, expressa
esse trajeto em meio à desolação de forma esplêndida. As passagens mais calmas
não deixam de ter um peso, uma densidade, uma carga suficiente para que a desolação
deixe de aflorar. Do mesmo modo que as anteriores, ela tem uma dosagem exata
para que se desenvolva uniformemente sem que se torne uma viagem sonora
entediante. Suas variações são, aliás, o que mantém a história, ali contada,
tão convidativa.
8. II - After My Suicide (The Lost Land) - Juntamente com a
faixa anterior, esta ultrapassa os 11 minutos de duração. É a segunda parte da
epopeia, onde o herói chega ao seu regozijo. Após tantas perdas e angústias,
parece haver um contentamento, uma sensação de tranquilidade. Nada mais dói.
Nada mais é laborioso. Há luz, há cores, há sons agradáveis vindo de todas as
direções. Há, enfim, alívio. O piano, marcante, dá continuidade na caminhada
rumo à terra da pós-existência. Os riffs de guitarra trafegam com intensidade
pelas vielas do, ainda, desconhecido. A bateria e o baixo manifestam
entrosamento ideal com o que a canção transmite. Aos sete minutos e meio da faixa,
a suavidade se assenta belissimamente, refletindo a serenidade alcançada por
quem passou a vida toda almejando nada mais que a paz interior. A guitarra dá a
melancolia necessária para gerar uma gama de sensações. O piano parece falar
com alegria, anunciando o remanso, enfim, encontrado.
9. III - New Meaning - E, em sua quietude, o despertar. Quando
se chega ao fim de tudo, há - independentemente das crenças e fés - um
renascer. E, aquele que sofreu severamente em vida, pôde, finalmente, olhar
para si mesmo. Essa percepção profunda o fez compreender que a morte nada mais
é que o cessar de seu eu. O eu imerso em angústia, desespero e dor. Ao matar a
si, matou tudo que o atormentava. Agora, sob seu olhar límpido, consegue
enxergar o que existe, de verdade, por debaixo de toda dor e sofrimento. Um
novo eu, o autêntico, o único, que foi massacrado, soterrado e limitado pela
agonia de existir, meramente existir, ao invés de viver, de fato. Não mais será
assim, porque jaz aquele e renasce este, em um novo significado.
Assim como em seus álbuns anteriores, Unguilty ingressa Gray
em temas existenciais, profundos, que assombram aqueles que tiveram seus olhos
marejados pela escuridão. No entanto, ele é um álbum com passagem de ida, mas,
também, de uma volta. Não ao momento em que se estava, mas a um novo momento.
De forma incrível, Gray traz a dor e também o alívio. A fadiga e o descanso. O
nada e o tudo. E, principalmente, o fim e o início, exatamente nesta ordem.