quarta-feira, 10 de maio de 2023

Indicações de álbuns por artistas da cena

 


Aqui seguem álbuns indicados por músicos/musicistas da cena de DSBM brasileira. Evidentemente, não foi possível contatar a todos, muitos nem sequer tem redes sociais, e outros já estão afastados do meio há algum tempo. Cada pessoa aqui indicou 2 álbuns de DSBM, o porquê de terem os citados se devem a diversos motivos, seja por serem seus favoritos, seja por serem os primeiros lançamentos que os apresentaram ao subgênero, seja porque foram de grande influência para criarem suas próprias bandas e projetos.


Das Irrlicht (Alivium)

Funesto - Depressivos Hinos Suicidas [2015]

• Herbstregen - Leben Gescheitert [2011]

 

Serotonin (Abyssal Pain)

Abisma - Memórias [2015]

Xasthur -Telepathic with the Deceased [2004]

 

Lophrano (Allonair)

Hikan - A Breath for a Sorrow of a Dying [2016]

Saxtorph - Valget [2015]

 

Behevras (Drowned)

NONE - Life Has Gone On Long Enough [2018]

MyUseless Life - Negative Memories [2014]


Seektor (Abisma)

Make a Change... Kill Yourself - Make a Change... Kill Yourself [2005]

Vesano - Gritos do Tempo [2011]


Skymning (Abisma)

:Nihus: - Monólogo do Sofrimento [2016]

Lamúria Abissal - O Último Descanso Finalmente lhe é Concedido [2012]

 

Natterskrek (Neural Oestridae)

Sterbend - Dwelling Lifeless [2006]

Thy Light - Sui.De.pression [2007]

 

Kamikaze Joker (Drowned)

NONE - Damp Chill Of Life [2019]

Inverno Eterno - Póstumo [2008]


Marcus (Nóstus)

No PointIn Living - I Will Die Tomorrow... [2017]

Photophobia - The Seven States of Mourning [2012]

 

Fúnebre - (Funesto)

Wintercult - The Last Winter [2013]

Fear ofEternity - Spirit of Sorrow [2006]

 

Misanthrope e Vitor (Meaningless)

Xasthur - Defective Epitaph [2007]

Lamúria Abissal - O Último Descanso Finalmente lhe éConcedido [2012]

 

F.R (Unguilty)

Lifelover - Erotik [2007]

ExiledFrom Light - There Is No Beaty Left Here [2010]

 

Pale (Forgotten Abyss, Lamúria Abissal)

Photophobia - Humanas Fragilitas [2010]

Apathetical Syndrome - Одинокое восхождение [2009]

 

Depression 4 (Abismika, Depressiona)

When Mine Eyes Blacken - When Mine Eyes Blacken [2009]

Psychonaut4 - Neurasthenia [2016]

 

Érdos (V/H/S, Montosse, Autoquíria)

Nocturnal Depression - Nostalgia - Fragments Of A Broken Past [2006]

Lifelover - Pulver [2006]

 

Astratta (Montosse, Entardecer, A.S.A.H, Ensimesmamento, LeDélire des Négations, Xaktenarh)

Hypomanie - Sehnsucht [2008]

Ghost Bath - Moonlover [2015]

 

Yakoushi (Nattag, Suicide Is Solution)

Lifelover - Konkurs [2008]

Trist - Zrcadlení melancholie [2007]


Morta (Enforcada pela Vida)

Hypothermia - Självdestruktivitet född av monotonatankegångar [2004]

Entardecer - Lethargy [2018]


Calux (Solium)

Totalselfhatred - Totalselfhatred [2008]

Silencer - Death Pierce Me [2001]

 

Astaroth (Frio Insólito)

Faith -Take Me Away [2020]

Now Everything Fades - Mass Suicide Carnival [2019]

 

C22H28N2O (Deadleaf, Whore Illusion, Fentanil)

Lifelover - Sjukdom [2011]

Montosse - Wintercearig [2017]

 

Mad (DSBM - Depressive Suicidal Black Metal Brazil)

Life Is Pain - Bloody Melancholy [2006]

Depressive Years - Failing to Confront Suicidal Thoughts [2009]

 

Lúgubre (DSBM Images)

Through the Pain - Time Heals Nothing [2009]

Apati - Eufori [2009]


segunda-feira, 1 de maio de 2023

Playlists no Spotify


Aqui estão algumas playlists disponibilizadas no Spotify.
Creio que seja importante ressaltar algo. Quando se fala em dar suporte às bandas/artistas, não é unicamente no sentido financeiro direto. Comprar material físico como CD's, K-7's ou vinil, camisetas e patches é importante, claro, mas seguir as redes sociais das bandas e escutar suas músicas nos serviços de streaming também é essencial, principalmente nos dias atuais. Na cena DSBM, nem todas as bandas dispõem seu material sonoro em todos os serviços de streaming, a exemplo do Spotify, ainda há poucas bandas, no entanto, elas se encontram ao menos no serviço mais prático para muitas: Youtube. O Bandcamp também é uma excelente plataforma, porque há um conjunto maior de suporte ao artista. Ainda há outros serviços como Soundcloud, Deezer, etc., e as próprias redes sociais - instagram e facebook - onde os artistas postam vídeos com suas músicas que nem mesmo se encontram em outros locais da internet. Não importa o meio, o importante é que nós, fãs, possamos contribuir com quem nos agracia com sua música, um tipo muito singular e pessoal de arte.


•  DSBM [bandas de todos os países]:

•  Depressive Rock/Narcotic Metal:

•  DSBM Brazil [somente bandas nacionais]:

•  Playlists no YouTube:


 

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Entrevista com fãs de DSBM


A arte existe para expressar e evocar, e sua possibilidade se dá pelo conjunto artista e fã - o indivíduo que recebe aquela expressão artística. Assim, esta é uma entrevista com não músicos e não musicistas da cena, mas sim com quem consome DSBM diretamente: fãs. Aqui, 4 fãs do subgênero mais depressivo do Metal falam um pouco sobre este tipo de música que tanto apreciam.


Fazem cerca de duas décadas que o DSBM surgiu, então é, relativamente, um subgênero novo do Metal. Como você conheceu o Depressive Suicidal Black Metal?

• Soraya: Depois de descobrir o Black Metal, fui mais fundo e encontrei a música perfeita para mim e minha personalidade.

• Lilly: Eu desde criança já despertava um gosto pelo Rock, daí fui conhecendo mais gêneros, então conheci o Black Metal que foi o gênero que eu mais me encaixei e que eu mais gostei. Daí conheci meu namorado, ele também já gostava do Black Metal e curtia as mesmas coisas que eu, e foi ele quem me apresentou o DSBM que, de cara, eu gostei muito. Percebi que os dois gêneros se encaixam muito com o meu eu também. Assim, DSBM passou a ser o meu segundo gênero preferido.

• Elivelton: Conheci através do YouTube em meados de 2012/13, como indicação de vídeo de músicas parecidas com o que eu escutava na época, ao qual eu tava procurando escutar um som mais atmosférico e profundo, acho que o algoritmo daquela época era bem melhor do que hoje em dia (kkk).

• Bea: Sempre busquei me aprofundar na cena do Black Metal e consequentemente não levou muito tempo até conhecer o DSBM. Não me lembro com clareza mas acredito que Nocturnal Depression tenha sido a primeira banda que ouvi do gênero. Aqueles gritos melancólicos logo me chamaram atenção e me fez conhecer outras bandas bem notórias como Psychonaut 4, Lifelover, etc.

 

Qual foi a sua sensação ao ouvir aquela sonoridade mais melancólica, angustiante, com uma atmosfera desesperadora, e ao perceber do que se tratavam as letras?

• Soraya: Senti que encontrei meu recanto no espectro musical, que poderia representar totalmente tudo o que sentia.

• Lilly: Foi uma sensação muito intensa e boa, eu sentir uma profunda tristeza reconfortante. O sentimento de conforto ao escutar o gênero permanece, sempre que estou triste ouço e me sinto um pouco melhor.

• Elivelton: Foi um misto de sentimentos e reflexões, quase uma meditação, e, às vezes se paro só para escutar sem fazer outra coisa em paralelo ainda posso sentir como naquela época. Sentimentos como uma angústia gelada e nostalgia, e o vazio de saber que tô sozinho independentemente de qualquer coisa são recorrentes enquanto me concentro na música, às vezes extasiado só curtindo o momento.

• Bea: Reconfortante. Particularmente, o DSBM tem sido meu amparo mais sincero. É o gênero que abraça os doentes. Os artistas do gênero não se importam em fazer um som super estudado ou que chame a atenção das pessoas na cena do Metal, e através dessa arte compartilham seu desespero, seu desamparo mais súbito e mórbido diante de uma vida sem propósito.

 

Quais são suas bandas favoritas deste subgênero?

• Soraya: Funesto, No Point In Living, Lifelover, Këkht Aräkh, Shining, Ofdrykkja, Nocturnal Depression, Happy Days, Thy Light e Bonjour Tristesse.

• Lilly: Eu escuto todas as bandas, todas eu amo muito (rsrs).

• Elivelton: Nocturnal Depression, Uaral, Lifelover, Hypothermia, Forgotten Tomb, Woods of Infinity, Austere, Shining, Totalselfhatred, Hanging Garden, Be Persecuted, Apati, Vanhelga, Ofdrykkja, Psychonaut 4, Happy Days, Sadness, Thy Light, Dreariness e Lamúria Abissal.

• Bea: Amo profundamente Thy Light, Austere, Ecos Póstumos, Angustifolia e Lifelover. Mas, recentemente tenho ouvido mais projetos do underground brasileiro.

 

O Black e Doom Metal são, sem dúvidas, os gêneros pilares para a criação do DSBM. Você costuma ouvir estes gêneros também? Se sim, quais bandas você mais aprecia?

• Soraya: Às vezes Black, o mais clássico, mas sobretudo Burzum e Darkthrone.

• Lilly: Sim. São inúmeras as bandas, mas algumas delas que mais gosto: Mayhem, Darkthrone, Dark Funeral, Mystifier, Velho, Uaral, The Cross, Inventtor.

• Elivelton: Foi escutando esses gêneros que desenterrei o DSBM (haha). Projetos como Agalloch, Burzum, Nargaroth, Mayhem, Summoning, Darkened Nocturn Slaughtercult, Satyricon, Nortt, Katatonia, Behemoth, Belphegor, Inquisition, Forest of Shadows e por aí vai, tô sempre aberto a conhecer trabalhos nesses gêneros.

• Bea: Realmente ouço muita coisa, mas algumas bandas que levo como fonte de inspiração são Bethlehem, Katatonia, Beherit, Candlemass e Eletric Wizard, também ouço gêneros como Blackgaze e Dungeon Synth, enfim, a lista é grande.


Por ser um tipo de música com temas bem pesados, e até sensíveis, não é comum muitas pessoas ouvirem Depressive Black Metal. Você mantém amizade com outras pessoas, fora da internet, que também curtem DSBM?

• Soraya: Poucas, mas sim, três.

• Lilly: Não.

• Elivelton: Só conheci uma vez uma pessoa que conhecia o gênero, mas não curtia tanto e isso já fazem anos.

 • Bea: Sim, tenho alguns amigos que não só curtem mas criam projetos com o gênero.

 

O DSBM, pelas suas temáticas, é alvo de preconceito, infelizmente, até mesmo dentro da cena do Metal. Qual sua opinião a respeito de quem age assim?

• Soraya: Me parece desrespeitar um estilo de música só porque não são capazes de entendê-lo.

• Lilly: Na minha opinião, que eu saiba, o respeito é recíproco, então se essas pessoas agem dessa forma o certo é agir também igualmente, porque se uma pessoa (ou pessoas) não respeita o meu jeito, meu gosto, eu também obviamente não tenho obrigação de dar respeito a quem não me respeita, é isso!

• Elivelton: Acho triste e controverso já que toda a proposta, de qualquer que for o subgênero, no Metal é de expressão.

• Bea: É um assunto um pouco complexo, mas, resumidamente, os artistas do gênero buscam expurgar ao máximo sua angústia e dor da existência, fazer dessa arte um motivo pra ainda insistir como um indivíduo. E por outro lado, todos sabem que sempre existiu pessoas ignorantes e que banalizam qualquer dor que não seja a de si mesmo. Mas acredito que a maioria que se identifica com o gênero já sabe disso e não se importa com o que dizem, existem problemas maiores e que merecem atenção.

 

Não é comum bandas deste subgênero realizarem apresentações ao vivo. Mas, se fosse possível um dia, existe alguma (ou mais de uma) banda de DSBM a qual você gostaria de ir a um show?

• Soraya: Eu adoraria, especialmente Lifelover, também gosto muito de Thy Light.

• Lilly: Amo todas as bandas, então eu ia adorar ir em um show de cada uma, todas são muito boas!

• Elivelton: Se fosse possível um festival só de DSBM seria muito foda.

• Bea: Como a maioria, adoraria ir num show do Psychonaut 4 e do Thy Light, agora que o Paolo e Alex tem feito apresentações.

 

Considerações finais.

• Soraya: Eu realmente aprecio muito que existam plataformas para os fãs do DSBM se encontrarem, conhecerem novas pessoas e compartilharem bandas.

• Elivelton: Agradeço pelo convite para expressar a minha gratidão a esse subgênero que eu gosto tanto. E por todo esse trabalho incrível que meu amigo Lúgubre vem mantendo em suas páginas por esses anos que o conheço, cultivando sempre um ambiente de respeito, informação, divulgação, expressão e bom humor.

• Bea: Conselho: ouçam Narcotic Metal. E deixo meus agradecimentos a página que mais tem dado suporte ao gênero e seus fãs!

 

*Soraya é nossa seguidora residente em Galiza, Espanha.

sábado, 1 de abril de 2023

22 anos de Death - Pierce Me

 


Quando se fala em Depressive Suicidal Black Metal, Silencer é comumente a banda mais citada, possivelmente, devido a figura impactante de seu vocalista Nattramn, mas, para além da parte visual chocante associada a ele, o motivo real é que esta banda trouxe uma obra-prima em seu álbum de estreia e que soava muito diferente do que era encontrado em bandas de Black Metal na época.

Formada inicialmente pelo guitarrista Leere, no ano de 1995, Nattramn se juntou à banda alguns meses depois e ela se consolidou em um duo. Em 1998 gravam uma demo da música 'Death - Pierce Me', evidenciando os vocais agonizantes e afogados em um profundo sofrimento por Nattramn, e a melancolia muito bem trabalhada sonoramente por Leere. Esta música veio a se tornar o nome do primeiro e único álbum da banda, lançado em 1 de abril de 2001, e que teve a faixa-demo incluída em uma nova versão. Este álbum é realmente um material sonoro bastante difícil de digerir, no entanto, é um dos essenciais do DSBM e um dos poucos que se tornaram amplamente conhecido nesse meio.

Death - Pierce Me: A música homônima ao álbum inicia-se com um riff suave e cativante onde engana o ouvinte que desconhece o que está por vir. O ponto alto é justamente quando Nattramn surge com seus lamentos rasgando a garganta e implora pela morte. A parte instrumental é muito bem encorpada, com belos riffs e solos de guitarra, marcantes levadas de bateria e linhas de baixo que, embora caminham por vias uniformes com os acordes de guitarra, são bastante expressivos. A finalização dessa música, bem como de todas as outras do álbum, é algo muito interessante, fecha-se de forma precisa.

Sterile Nails and Thuderbowels é a canção da banda que ganhou maior destaque e, sem dúvidas, é esta a música que evidencia a sublime musicalidade de Leere, afinal, se não fosse por ele, provavelmente, este álbum não teria entrado na história como um clássico do DSBM. Ele fornece uma majestosa atmosfera para as lamúrias atormentadoras de Nattramn, que se estivesse vociferando suas dores sem música, obviamente, não soaria como música. A união musical desses dois é uma expressão sincera de como a boa música pode surgir quando há fidelidade naquilo que se quer transmitir.

Taklamakan é, geralmente, a que mais atrai as pessoas porque, supostamente, Nattramn estava se cortando severamente e engasgando-se durante a gravação dela. É possível ouvir esses sons de forma nítida. Os riffs de baixo que abrem a canção também são bastante marcantes e mantém o ouvinte atento, apenas aguardando o que está por vir. Logo a música explode e, dolorosamente, os traumas existenciais de Nattramn eclodem junto. Os riffs de guitarra são simples, mas muito bem inseridos e se complementam com a bateria bastante rápida. Nessa música Nattramn vai ao extremo, como se estivesse em seu nível máximo de insanidade.

The Slow Kill In The Cold parece ser um contraste à faixa anterior e, com um fluxo lento, suave e melancólico de sintetizador, conduz o ouvinte a uma certa calmaria. Mas, antes mesmo do ouvinte poder imaginar uma paisagem menos sufocante que fôra criada por esta faixa, é novamente lançado às angústias lacerantes de Nattramn que se seguem pela faixa seguinte.

Shall Lead, You Shall Follow mantêm a rapidez rítmica incessantemente. É uma viagem sonora em velocidade, mas sem perder o ar desesperador que paira sobre todo o álbum.

Feeble Are You - Sons Of Sion encerra o álbum e é uma canção executada apenas no piano trazendo consigo a sensação de uma certa calmaria depois que não existe mais nada a ser destruído, pois tudo está morto, terminado, encerrado.

 

O que tornou a banda conhecida no meio do Black Metal foram os vários rumores, suposições e lendas que se mesclaram a eventos reais ocorridos com Nattramn. Nattramn não queria apenas expressar sua dor e angústia através de suas letras e seus vocais, ele queria que a música soasse o mais real possível para que o ouvinte pudesse sentir quão desesperado ele estava. E ele decidiu se automutilar antes e durante as gravações de cada faixa. Seus gritos eram de extrema dor, uma mistura do que ele estava sentindo fisicamente naquele momento junto com as dores mentais que ele já arrastava por anos. Gritos, urros, choros e sons de ânsia de vômito e engasgamento podem ser ouvidos nas músicas. Esses detalhes incomuns somaram para que os críticos descreverem a música de Silencer como ruídos tolos e sem graça, mas, quando se olha para as características estéticas que são tecidas a partir da subjetividade emocional complexa de Nattramn e Leere, fica claro que todos os instrumentos, as falas, lamentos, urros e gritos sobem do mais profundo poço onde habitam os seres massacrados pela existência humana. Pouco tempo após o lançamento do álbum, Nattramn foi encaminhando para um hospital psiquiátrico em período integral de internação, e a banda encerrou atividades após esse evento. Independente dos vários boatos, inverdades e datas imprecisas, o fato é que em suas músicas Nattramn expressou todo o seu desespero e sua insatisfação para com a vida e com o mundo, isso de maneira bastante direta. Ele enfatizou a natureza de seus gritos estridentes, de alguém que estava sofrendo e sendo atormentado incansavelmente. Uma foto de Nattramn acabou sendo disseminada junto do álbum e, nela, ele se encontra com uma máscara ensanguentada e com bandagens manchadas de sangue nas mãos, nas quais aparecem pés de porco amarrados. Propagou-se que Nattramn se torturava durante as gravações das músicas e acabou amputando as mãos para substituí-las pelos pés de porco, mas, o que ele fez, de fato, foi amarrar com as bandagens os pés de porco às mãos. Mesmo vinte anos após seu lançamento, ainda há quem tache este álbum como uma peça horrível e que deve ser esquecida, como algo que deve ser retirado do Black Metal - a banda sempre disse fazer Black Metal e nada além -, mas não, não há motivos para essas duras críticas quando se analisa a banda, o álbum, as expressões ali colocadas sem vestimentas. Essas melodias foram arrancadas de momentos altamente emocionais e genuínos. Elas se uniram para formar uma camada crua, porém reveladora e intrigante. As letras são muito pessoais e/ou confessionais, que Nattramn escreveu para exorcizar seus demônios mais terríveis. Isso pode ser lido, escutado e mesmo visualizado - em paisagens mentais - como um vislumbre de momentos específicos da vida de um homem atormentado pela dor, pela loucura, pela existência cruel onde o sofrimento é imensurável. Há muita crueza e mensagens diretas em suas composições, mas, também, há espaço para abstrações. As letras e as melodias são muito mais emocionais do que se pode enxergar de início, e há imagens subjetivas e extremamente pessoais que não se pode encontrar na maioria das músicas de outras bandas do gênero. Nattramn e Leere uniram a profundidade dolorosa e escura de si mesmos, do sofrimento pessoal, e sangraram isto tudo em um estúdio de gravação.  Não existiu um objetivo, usando essa linguagem direta ou abstrata, de evocar algo, mas sim de expurgar. Expurgar tudo que corroía internamente e sangrava para além da carne. Tanto é que este álbum não pode ser tido em meio termo, por isso, ou se gosta ou não se gosta dele. O ouvinte vai defini-lo de acordo com o que se deseja capturar dele e de como pode sentir empatia por estes ou quaisquer outros músicos, pois as músicas deste álbum se manifestam como instantâneos pessoais de estados emocionais extremos e narrativas sombrias que procuram falar em uma linguagem de angústia, dor, desespero, que pode ser atraente ao ouvinte porque este pode ou não ter vivenciado momentos semelhantes.

Para o Depressive Suicidal Black Metal este é um álbum de extrema importância e que agrega, definitivamente, aos álbuns onde a dor é muito palpável e para além de meras impressões.


Discografia:

Death, Pierce Me (demo) [1998]

Death, Pierce Me (álbum completo) [2001]


• Fotos de Nattramn disponibilizadas no 20º aniversário do álbum


Obs: Vale reforçar que as imagens que circulam na internet de Nattramn sem bandagens, não é o Nattramn do Silencer, mas sim Rikard Bjernegård, da banda Frostrike. Ele também usou o pseudônimo Nattramn em sua banda, e, como ela também é uma banda de Black Metal sueca, a internet fica vinculando ambos como se fossem a mesma pessoa, e, por consequência, muitas pessoas continuam propagando esse erro até hoje.

sábado, 18 de março de 2023

Depressivos Hinos Suicidas

Com o intuito de dar suporte às bandas da cena brasileira de DSBM, nós estamos novamente trilhando o caminho das compilações. Nesta etapa, bandas da cena se juntam cada uma com uma canção que resulta em um conjunto de belíssimos e Depressivos Hinos Suicidas. A arte ficou por conta de Helder Ribeiro, e completa o conceito proposto para esta série de compilações.

Pensar sobre nossa existência sempre nos leva a uma dura verdade: a morte. Inevitável, ela não poupa a ninguém, mas, e quando o indivíduo a deseja? Diante do fardo imposto pela vida, chega-se a um ponto onde a dor sobrepõe a chama de vivacidade, alegria ou qualquer outra sensação de acalento. Por mais que se busque um pouco de alívio, nada parece cooperar para este resultado. Assim, os dias seguem, monótonos, sem nada de novo - embora a dor, esta sempre consegue se assentar mais e mais nos mínimos espaços que encontra. Absorto, em sua profunda introspecção, o indivíduo se depara com a única certeza da vida: Todos Os Caminhos Te Levam A Morte.


Depressivos Hinos Suicidas - Vol. I - Todos Os Caminhos Te Levam A Morte

1. Clonazepam - Manhã Traumática
2. Neural Oestridae - We Are Nothing
3. Rope - Asi
4. Soturnez - Decomposição
5. Freak Funebre - Distimia
6. Mepth - Fazia Frio
7. Angústia - Rasuras Da Dor
8. Drowned - Drunk And Dead Inside
9. Abismika -  Pesadelo Definitivo
10. Autodestrutivo - Morto Por Dentro, Sangrando Por Fora
11. Funesto - Todos Os Caminhos Te Levam A Morte

Agradecimento às bandas que participaram, às páginas DSBM Images, DSBMemes e DSBMpédia; aos canais DSBM Songs e Depressedy DSBM; aos blog Discografia do Metal Negro e Depressedy DSBM e, em especial, ao artista Helder (Natterskrek) pela arte de capa. Também agradecemos ao Sergio (Fúnebre) por ceder o uso do título de sua música como subtítulo deste volume.

Este 1º volume é dedicado a artistas da cena que já faleceram. Leandro (Lobo) da banda Angústia, que faleceu em 2016; Ricardo Almeida (Chackal) da banda Rope, que faleceu em 2018; e Alissa S. da banda Clonazepam, falecida em 2021. Que possam descansar, finalmente, em paz.

Use fones de ouvido e aprecie sem moderação!

YouTube

Bandcamp

sábado, 11 de março de 2023

Entrevista com Lúgubre e Mad

No ano de 2020, eu (Lúgubre) e Mad participamos de um podcast distribuído no Spotify. Atualmente ele foi encerrado, mas, na ocasião, era feito por um grupo de amigos que falavam sobre música em geral. Cada episódio abordava um gênero musical e, com frequência, haviam músicos de diversas bandas dentro do Rock e Metal que eram convidados a fazer parte do bate-papo. Foi uma surpresa para mim e para o Mad tal convite, visto que o DSBM é um tipo de música desconhecido. No entanto, aceitamos o convite, justamente, por ser um tipo de música onde há pouquíssima informação sobre, mesmo na internet. Assim, falamos um pouco sobre este subgênero que muito apreciamos. É evidente que num único episódio, de cerca de uma hora, seria impossível falar do DSBM em toda sua abrangência. Então, foi algo bem resumido, mas procurando passar por pontos importantes. Tanto eu quanto o Mad temos nossas limitações na dicção, mas, ainda assim, engolindo a ansiedade, participamos. Aqui segue nossa participação como entrevistados de forma escrita. Não está na íntegra. No final do texto estará disponível o áudio completo para quem se interessar em escutar toda a entrevista.

 

Entrevistador 1: Pra começar a falar de DSBM, trago a teoria de Durkhein. Durkhein aborda o suicídio como qualquer caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo, que seja executado pela vítima e que ela saiba que o fim seria esse resultado: a própria morte. Ainda, no livro de Durkhein, ele explana outros assuntos que tem relação com o suicídio, como a regionalização. Como em países mais frios, com noites mais longas, dias mais escuros, tendem a ter uma taxa mais alta de suicídio. Vocês conseguem enumerar algumas bandas de DSBM que refletem isso nas letras?

Mad: Até a cor, a cor do ambiente, mais escuro, acinzentado, pode influenciar no suicídio. O Lúgubre escreveu algo sobre isso e pode falar melhor sobre.

Lúgubre: Podemos usar a América Latina mesmo como comparação. Todos os países daqui, apesar de não ter essa relação com o frio - a não ser o Sul do Brasil, mas cujo é um frio suportável-, tem a questão da pobreza e desigualdade. E isso também influencia no suicídio. Claro, pessoas ricas ou milionárias podem ser alvo do suicídio, no entanto, a pobreza pesa bastante nisto, sem dúvidas. E isso influencia aqui, no caso, dos países da América Latina. No caso dos países nórdicos, especialmente na Suécia - que acredito ser o berço do DSBM -, tem esse fator do frio, e também do crescimento das cidades. Há ainda a questão dos jovens que se sentem perdidos. Na Suécia, apesar de ser um país rico, com uma taxa alta de desenvolvimento, há uma solidão entre os jovens. Também, não há muito isso de falar sobre o futuro. Então os filhos têm que "se virar". E isso influi muito sobre os adolescentes. Muitas bandas como Lifelover, Apati e Ofdrykkja falam disso em suas letras. Sobre concreto bruto - a cidade com suas construções crescentes - que tira a visão da natureza. E, também, sobre um sufocamento que recai sobre a rotina de ter que estudar, trabalhar e sobreviver. Não há espaço para algum lazer. Então acabam recorrendo às drogas, lícitas e/ou ilícitas, medicamentos... e tudo isso reflete nas letras. Todas essas bandas, chamadas de "DepressiveRock/Narcotic Metal", trazem essa questão à tona. Ainda, sobre essa questão de regionalização, o Japão é outro exemplo. Lá também tem muitas bandas -­ algumas que nem mesmo usam o termo DSBM, mas abordam todos esses temas, já que lá também tem um índice alto de suicídio. Um fator que pesa é este de ter que ser o melhor, ter uma vida bem-sucedida, a qualquer custo. E, o interessante, é que as bandas de cada país expõem aquilo que é mais pesado na sociedade que a pessoa está inserida. No DSBM isso é muito evidente, expor o que o indivíduo sente de acordo com a sua própria realidade.

 

Entrevistador 1: Podemos começar a falar do início do DSBM. A primeira banda, de fato, foi Silencer ou Lifelover?

 Lúgubre: Traçar o início de gêneros musicais é difícil; de subgêneros é ainda mais. O que ocorre é que na década de 90 já existiam muitas bandas que faziam uma sonoridade Black Metal, misturando com o Ambient, com o Atmospheric, até com o Death Metal, como o caso do Malvery.

 Mad: E muitas eram chamadas de Black Doom.

 Lúgubre: Todas as bandas da década de 90 - eu costumo rotular como "Proto-DSBM"-, embora não usassem o termo DSBM, todas já abordavam os temas que vieram ser comuns no DSBM: O desejo pela morte, o suicídio, os transtornos mentais. Bandas como Xasthur, fundada por Malefic e Malvery - banda canadense onde o vocalista expôs tudo o que ele estava sentindo no momento da gravação, e que veio a lançar um único álbum, e antes de chegar a ver o lançamento deste álbum o vocalista cometeu suicídio - são exemplos. Então, essas bandas da década de 90, Xasthur de 1995, Malvery de 1993 e Abyssic Hate de 1993 já estavam moldando o que viria ser o Depressive Suicidal Black Metal. O Silencer surgiu em 1995, mas, somente em 1998 Nattramn entrou na banda, e então começou a compor e se expressar. O Silencer é citado como a primeira banda porque, em 2001, lançaram o álbum que de fato mudou a cena naquele momento. É uma banda do tipo que não existe meio termo: ou é boa ou não é; quando alguém escuta pela primeira vez. Muitas pessoas, inclusive, gostam de exaltar apenas o instrumental e criticar os vocais de Nattramn. Mas a banda é uma dupla, e talvez não existiria a banda se não fosse a perfeita junção de ambos os envolvidos.

 

Entrevistador 2: Foi o Nattramn que começou com o vocal mais gritado?

Lúgubre: Com esse tipo de vocal, sim. Enquanto os vocalistas tradicionais de Black Metal faziam um vocal agudo e mas odioso, ele dosava a dor literal com o ódio, resultando num vocal desesperador. E ele não se importava em como cantar, apenas deixava sair de forma espontânea. Foi uma forma que ele optou por cantar e se expressar. Embora eles fizessem Black Metal, e nunca tenham reivindicado o termo DSBM pra si, eles também não eram bem aceitos no meio do Black Metal. Mas, haviam algumas pessoas que já estavam começando a recebê-los e estavam se sentindo expressadas pela banda.

Lifelover surgiu em 2005, não foi a pioneira do DSBM, mas foi uma das bandas importantes no subgênero. Jonas e Kim fundaram a banda e dosaram vários elementos, como a levada Pós-punk e Black Metal, o que resultou em um contraste interessante. Músicas dançantes, mas com letras falando de temas mais pesados e tabus, com uma dose de sarcasmo e ironia.

 

Entrevistador 2: Então o Pós-punk influenciou o DSBM?

Lúgubre: Influenciou mais essas bandas que são chamadas de "Depressive Rock/Narcotic Metal" como Lifelover. Anos depois, Apati, e, quando Obehag morreu, Pessimistem formou a Ofdrykkja. E muitas outras foram surgindo e seguindo nessa linha com influências do Pós-punk. Podemos dizer que dentro do próprio DSBM tem algumas vertentes, como essas bandas suecas que se focaram numa sonoridade até meio dançante, em contraste com temas mais pesados. A sonoridade é menos "suja" também, comparada com o DSBM das primeiras bandas que seguiam mais pro Black Metal. Essas, da cena sueca, se focam mais em temas como a melancolia urbana, adicção de álcool e outras substâncias, autoagressão e relacionamentos interpessoais.

 

Entrevistador 2: E o DSBM é algo bem íntimo, né? Algo mais da pessoa mesmo.

Lúgubre: Sim, é algo bem pessoal. Claro, a partir do momento que você expõe isso, como na internet, há a consequência de alguém escutar. Mas o objetivo é expressar algo seu para você mesmo. Uma dor sua que você tenta manifestar através da música; isso define o DSBM. Por isso é muito comum as bandas serem de um só membro. Geralmente é uma pessoa solitária que tenta expor suas emoções.

Mad: Por isso é até difícil de digerir o gênero e tornar ele popular, pois é uma dor tão pessoal, algo tão íntimo que você não espera que outra pessoa escute e entenda o que você queria passar, de uma forma tão sincera. O DSBM é algo que você está fazendo mais pra você do que para os outros. É a sua válvula de escape, é dizer o que você sente, sem se preocupar com a opinião dos outros. Você faz por você, para o seu bem. Por isso, também, é difícil de ter uma banda de DSBM com 1000 visualizações. Você faz com intuito de só você escutar, ou nem mesmo você escutar depois. Você lança para dizer pra si mesmo que expôs aquilo pra fora, e não para ficar famoso com aquilo. É uma válvula de escape apenas.

 

Entrevistador 2: Tem pessoas que vêem o DSBM como romantização da tristeza, do suicídio. Mas não é isso. É mais algo da pessoa mesmo querendo se expressar sinceramente, né?!

Mad: Até porque não faz muito sentido, quem em sã consciência se vangloriaria de ter depressão, de pensar em se matar? Não faz sentido. A gente que está nesse meio se sente destruído por passar por essas coisas, e não deseja isso a ninguém. Daí ver alguém de fora dizer que estamos romantizando o suicídio é o que deixa a gente ainda mais triste.

Lúgubre: E as pessoas se baseiam isso em outros gêneros de música. Por exemplo, há gêneros que falam da tristeza, mas é da tristeza em si, não de coisas pesadas como é característico do DSBM. O DSBM vai a fundo, falando de coisas que é até difícil colocar em palavras, e por isso se une a vocais desesperados. É algo desesperador e que você não molda, não pensa em como vai cantar, apenas sai de forma sincera ali no momento.

 

Entrevistador 2: Qual a banda pioneira de DSBM no Brasil?

Lúgubre: Pioneira cantando em inglês é Thy Light, mas eles nunca se colocaram como DSBM. Desde o início já caminhavam com o Atmospheric Black Metal. Já era um som mais fácil de digerir, e por isso teve um alcance maior. Cantando em português existem muitas bandas que surgiram, e por isso não tem como identificar apenas uma. Neblina Suicida, Lamúria Abissal e Funesto estão entre essas primeiras.

Mad: E tem Vesano também.

Lúgubre: Essas bandas também eram distintas, cada uma seguindo com suas próprias características dentro do DBSM.

 

Entrevistador 2: Tem bandas brasileiras que vêm chamando a atenção de vocês, atualmente?

Mad: Frio Insólito, que lançou singles entre 2016 e 2017, e agora em 2020 lançou seu primeiro EP. Abismika, que vem fazendo um trabalho excelente. E Morte Rubra, onde o vocalista e letrista Alan, para mim, é o melhor que surgiu nos últimos tempos dentro do Black Metal em geral.

Lúgubre: Nattag, que é de Ponta Grossa, Pr, que fez algo interessante, uniu o Noise ao DSBM, algo meio experimental e ficou um som muito bom. A Unguilty, que é de Curitiba, e tem uma sonoridade flertando muito com o Doom, somando linhas de piano, passagens mais limpas e mais pesadas. Praticamente todos os dias tem bandas novas surgindo, justamente para a pessoa poder se expressar e, por consequência, também tem muitas pessoas que buscam por sons assim para escutar. E quem escuta, muitas vezes, é influenciado a criar seu próprio projeto também.

Mad: Rolou uma espécie de boom entre 2014 a 2016 por aqui. Depois muitas bandas foram encerrando, algumas devido ao integrante cometer suicídio. Então em 2019/2020 começou a renascer a cena e muitas bandas novas foram se formando.

 

Entrevistador 2: Tem outro derivado desse subgênero, do DSBM?

Lúgubre: Então, algumas bandas suecas se focaram mais na melancolia urbana. Muitas tinham membros ainda adolescentes quando foram formadas e, com isso, como não conseguiam se expressar de outra forma, eles colocavam tudo na música. Essa linha é chamada de Depressive Rock/Narcotic Metal. Há bandas que tem elementos mais atmosféricos como Woods Of Desolation, ColdWorld, Austere, aqui no Brasil As Long As I Can (ALAIC), Entardecer e Rope, por exemplo. Tem outras flertando mais com o Doom como as brasileiras HatefulAgony, Allonair e a Unguilty. E tem as bandas que já partiram para o Post Black Metal, com um som mais limpo, com guitarras mais limpas e com distorções menos pesadas como as brasileiras Gray Souvenirs, Help, Gulag, Depht. Essas últimas, inclusive, surgiram no DSBM, mas com um som mais pro Post Black Metal - também chamado de Blackgaze - no decorrer dos seus lançamentos. Isso ocorreu porque o DSBM meio que abriu as portas para essa galera, já que o Blackgaze também é discriminado dentro do Black Metal, por soar mais limpo, mais melancólico e menos pesado, e também por ser algo novo no meio. O DSBM, à propósito, é um subgênero bem novo ainda.

Mad: O Lúgubre e eu organizamos compilações com bandas exclusivamente nacionais. Fazemos uma espécie de curadoria, e vamos atrás das bandas.

Lúgubre: Eu gosto muito das bandas que cantam em português, isso para qualquer gênero. Mas aqui há um grande preconceito com bandas que cantam no nosso idioma nativo. No DSBM, eu aprecio muito isso porque é algo muito difícil cantar no próprio idioma, falar de algo seu, tão pesado. Outras pessoas daqui, que escutarem algo que você canta, vão compreender de imediato. E gera uma certa vergonha, digamos assim, no sentido de ser algo tão pessoal seu, e que outra pessoa pode vir a ouvir e até rapidamente te criticar, como infelizmente ocorre, algumas vezes. Logo que conheci o Mad começamos a pensar nisso de unir bandas em uma compilação, com a intenção única de dar suporte às bandas, que talvez não teriam algum alcance sozinhas, justamente pelo pouco alcance do DSBM em geral. Nessas compilações, bandas novas e as mais antigas da cena se somaram. Tem muitas bandas boas no Brasil e nossa intenção é levar isso às pessoas que curtem esse tipo de música, para não ficar aquilo de só escutar bandas de outros países e ignorar o que temos aqui também e com boa qualidade.

 

Entrevistador 2: Tem uma curiosidade que é um Split do Happy Days com o Deadspace, onde o A. Morbid canta em espanhol.

Lúgubre: Outra curiosidade é que há uma demo, do início, do Happy Days onde o A. Morbid canta em norueguês. Ele fez isso como uma homenagem às bandas que curtia, e eram da Noruega. E na época, também, ele estava aprendendo esse idioma e quis testar em suas primeiras músicas. O interessante do espanhol é que tem um alcance muito grande no DSBM. Talvez o público maior do DSBM esteja em países onde a língua espanhola seja nativa. Basta olhar comentários em vídeos e postagens e ver a quantidade de pessoas desses países comentando. Há uma grande veneração, inclusive, à Nattramn, por esse pessoal do México e de países aqui da América do Sul.

Mad: A cena latina é a mais ativa de todas. Tem muitas bandas e o público consome bastante. Rola, com muita frequência, parcerias entre essas bandas aqui da América Latina. É muito comum ver uma banda mexicana, por exemplo, com algum integrante brasileiro.

 

Entrevistador 2: Eu não tinha essa ideia. Acreditava que eram mais países nórdicos que tinham um maior alcance.

Lúgubre: Isso é um ponto interessante. Porque muitas pessoas não enxergam isso que ocorre aqui mesmo, e por isso a ideia da compilação. Acaba sendo uma forma da cena conhecer mais essas bandas e valorizar, além do fato das que cantam em português você conseguir compreender o que está sendo cantado naquele momento; é algo mais familiar e direto. Isso também é muito gratificante para nós. Receber mensagens nas páginas de alguém dizendo "olha, essa é minha banda, meu projeto e tal", isso é o que nos mantêm seguindo cooperando, de alguma forma. É uma troca. Damos suporte às bandas e elas nos presenteiam com sua arte, que tanto apreciamos. E o DSBM é algo que nos faz seguir sobrevivendo pelos dias também, já que nos identificamos com o que é expressado, e que é tanto negligenciado pela sociedade.

Mad: Ultimamente tem sido mais raro vermos as bandas fazendo Split. Então isso das compilações é algo que junta as bandas também. Já soubemos de membros que se conheceram devido a elas e criaram outras bandas e projetos. Então é gratificante isso.

 

Entrevistador 2:  E sobre esse papo desanimador de dizer que a cena está acabando, ou que não tem mais nada de bom?

Mad: É o mesmo papo de dizer que o Rock já morreu. É realmente desanimador.

Lúgubre: Eu vejo isso como comodismo da galera. É fácil você pegar uma banda do passado, como Black Sabbath ou Metallica, e dizer que não há nada de inovador e bom hoje como era naquela época. Há milhares de bandas surgindo a todo instante e fazendo um som muito bom. Independente do gênero ou subgênero. Mas o comodismo da galera é alto, e preferem fingir que não há nada que presta hoje. Se prendem ao passado para não conhecer algo novo. A cena do Rock e Metal está cheia disso, e acaba até desestimulando outras pessoas no meio, mantendo um ciclo de achar que não há nada de bom nos dias atuais.

Mad: É até uma preguiça de pesquisar. Essa galera não vai atrás e por isso diz que a cena morreu, ou "se não chegou até mim, então não existe". Nós, com a página, tentamos sempre dar foco às bandas novas. Focar nelas. Porque não faz muito sentido você divulgar o que todos no meio já conhecem.

 

Entrevistador 1: Finalizamos a entrevista com indicações de bandas. Lúgubre, o que você indica?

Lúgubre: Indico a banda Alivium, banda brasileira com vocais femininos. E quero dizer que acho muito importante a presença feminina no Metal, e no DSBM não poderia ser diferente! Por enquanto essa banda tem apenas uma música, chamada Vazio, mas em breve a banda lançará um álbum. A vocalista usa o pseudônimo de Das Irrlicht.

 

Entrevistador 1: Muito bom! Meu querido Lúgubre vem aí para mostrar que nem todo sulista é pau no cu. E você, Mad, o que indica?

Mad: Montosse, banda composta por Érdos e Astratta, duas pessoas talentosas na cena e que somam várias bandas. A música é Pois os MortosViajam Depressa.

 

Entrevistador 1: E eu indico Funesto, a música Lembranças de um Suicídio.

 

Áudio com a entrevista na íntegra:





Ou ouça diretamente no Spotify:



Aqui estão algumas playlists no Spotify, para quem já aprecia DSBM e, também, para quem está começando a conhecer o subgênero.

¯ Depressive Suicidal Black Metal

¯ Depressive Rock/Narcotic Metal

¯ DSBM BR


sábado, 18 de fevereiro de 2023

Resenha de Gray - álbum de Unguilty

 

Enquanto o verão tenta soprar sua brisa ardente através do clima frio e chuvoso do leste do Paraná, eu busco por melodias que possam trazer um alívio gélido, ainda assim quente o suficiente para me lembrar que a existência humana consiste de algum equilíbrio entre os opostos. Sim, estou falando de Unguilty, banda de Depressive Doom Metal oriunda da capital mais fria do país: Curitiba. Tão fria quanto a cidade, são as melodias executadas por F. R. - Felipe Ravanello -, o único integrante da banda. Mas, engana-se quem pensa que o fato de ser um só membro faz desta banda algo limitado. Ela expande-se para além dos horizontes. Com seu talento nato, Felipe põe na balança cadenciados riffs de guitarras, linhas melancólicas de piano, baixo nítido e envolvente do início ao fim e bateria marcando uniformemente cada passo melódico das faixas. Seus vocais graves fecham a obra, criando uma atmosfera soturna, densa e imersiva. Ainda, há passagens com vocais limpos, onde cada palavra proferida ressoa majestosamente, completando, assim, as imagens lamentosas criadas em Gray, o 3º álbum de Unguilty. A parte lírica de Gray ficou por conta de Melissa Winter, que belissimamente expressa uma gama de emoções a cada linha. Uma poesia desesperada, agonizante, em desabafos de alguém que busca ferozmente pela luz. De alguém que foi tomado pela escuridão, cegando tudo à sua frente. A produção, gravação e lançamento do álbum fica à cargo do selo Eternal Awake Records. Embora não seja um álbum conceitual - de um modo e outro as faixas se relacionam umas com as outras -, seria um sacrilégio não fazer uma parada por cada uma delas. Então, embarque comigo para essa viagem pelas trilhas da desolação.

 

1. Asleep With The Midnight Sun - Com um suave riff de guitarra entrelaçado com sons de água corrente, que cativa de imediato, a faixa vai crescendo de forma precisa a cada segundo. Acordes suaves, mas, já expressando uma melancolia que prepara para o peso que chega em seguida. Os riffs distorcidos são muito bem encaixados, contrastando com os vocais vigorosos e que exalam o distanciamento da alegria. A letra remete a perdas, abandono, distanciamento. Quando tudo aquilo que trazia uma chama de vida se apaga, o que podemos fazer? Apenas se lembrar. Mas, as boas lembranças podem ser mais dolorosas que apaziguadoras. E a dor segue corroendo internamente. F. R. consegue trazer as emoções à tona de uma forma muito palpável, ainda, mantendo esmera sintonia com cada instrumento que executa. Assim como as demais faixas, ela ultrapassa os 5 minutos, mas é dosada para que não se torne monótona, pelo contrário, há partes mais rápidas que se encontram com as mais calmas e melancólicas, alicerçadas com uma linha de piano que agrega muito mais tristura ao panorama já densamente triste.

2. The Abyss And The Pendulum - A lentidão sonora, característica da banda, traz uma imersão muito maior ao ser evocada logo nos primeiros instantes desta faixa. O sintetizador cria uma imagem lutuosa impossível de se desvencilhar. A bateria acelera o ritmo, mas ainda é lenta o suficiente para que o ar fúnebre permaneça. E, é justamente o que a parte lírica expõe. Quando você não consegue enxergar nada mais a sua frente, quando a escuridão põe uma venda diante de ti, então, para onde ir? A única alternativa, já plantada e regada no decorrer do tempo, se torna um arvoredo em sua mente. Perante o abismo, o corpo, deliberadamente, cai. Não é preciso, sequer, dar o impulso. O cansaço, penetrando dia após dia até os ossos, é suficiente para que o corpo apenas busque seu fim por si só. A mente cessa. Não há porquê resistir. A resignação se assenta para que não haja mais luta alguma, afinal, não há mais físico e mental aptos para qualquer luta que seja. O não existir paira pela eternidade.

3. Coexistence - A canção que traz uma calma, após as duas primeiras mais densas, não deixa de ser tristemente bela e profunda. Com vocais limpos, F. R. recita a dor da partida. Nesse ponto, não é mais a dor de quem partiu, mas sim de quem ficou. O pesar que parece nunca vir a se tornar saudade. Perder alguém é uma dor infindável, que, talvez, seja transformada - externamente - em saudade, em algum momento da vida, mas, a dor em si, esta ainda tem seu assento dentro de cada um de nós. O instrumental é imensamente marcante, com riffs de guitarra que emergem conduzindo a música e levando-a cada vez mais ao lago emocional onde a tristeza preenche incansavelmente. Mesmo nas partes mais rápidas, os riffs seguem acentuados. A saída da velocidade para a sonoridade mais lenta se faz com primor, não há quebra sonora, o que torna a faixa integral com todas suas partes singulares.

4. Gray - O piano, que é o instrumental característico em sonoridades do Depressive Doom, se faz presente aqui logo no início. Com uma bateria cadenciada, ele ressoa lastimavelmente enquanto os vocais limpos são proferidos. As linhas de guitarra, como de praxe, são a guia da desolação. O baixo, aliás, instrumento de maior familiaridade de F. R. (custei a usar esse termo, visto que o músico é multi-instrumentista nato) tem sua marca notavelmente acurada, não só nesta, mas em todas as faixas. A música-título do álbum fala sobre o não-sentir. Quando o indivíduo se encontra morto, em emoções, sentidos e sensações. A paisagem é sempre acinzentada, não há vida, cores, nitidez. As vistas se ofuscam junto à natureza funesta que rodeia a tudo. Estar morto, mas, ainda assim, não estar. A consciência de si, este é o inferno real.

5. Hill House - Seguindo Gray, esta faixa também traz uma suave introdução com piano, acordes limpos de guitarra e vocais imersivos e limpos se abrindo às lembranças, anseios e saudade. A saudade, que outrora sobrecarregava como luto, aqui se faz corpórea. O desejo de poder aliviar as dores de quem estimamos, de reviver o que tivemos, os momentos, os afetos compartilhados, os silêncios. A música segue mais marcante, em sua lentidão expressiva, penetrante, com a bateria agregando o peso exato para chegar ao fundo das emoções mais secretas de nosso âmago. A ambientação, inclusive, é imprescindível para isto. O ar enevoado, abraçando em todas as direções, parece nos levar a um vendaval. Não um vendaval hostil, mas sim aquele preciso, na exata turbulência para que cada partícula do som se mescle ao nosso próprio corpo e mente, talvez, no alto da colina de nossos sonhos soterrados.

6. Rest - Após dores, angústias e pesares, o descanso chega. Esta faixa é toda instrumental, mas, o fato de não ter canto não torna ela inexpressiva. Ela fala, ela ressoa liricamente, ela transmite muitas mensagens, sem nada dizer. Guitarras, baixo, bateria e piano fazem Rest bradar pela vontade de repousar, respirar, encontrar um resquício de serenidade. Do início ao fim, ela consegue colocar isto de forma tangível.

7. I - The Garden Of My Suicide - Embora, à princípio, não seja um álbum conceitual, aqui inicia-se o primeiro capítulo de 3 canções que, por que não dizer, resultam em uma epopeia. Desde a primeira faixa até aqui, as emoções mais obscuras foram trazidas à tona. Não é diferente agora, no entanto, elas estão ainda mais afundadas no desamparo de uma alma que chegou ao seu final, o final por suas próprias mãos. Além da visão enegrecida no nada, as dúvidas de o porquê daquilo, pairam, remoem, disparam sem cessar. A tormenta aumenta, toma proporções inconcebíveis. F. R., com sua voz vigorosa, expressa esse trajeto em meio à desolação de forma esplêndida. As passagens mais calmas não deixam de ter um peso, uma densidade, uma carga suficiente para que a desolação deixe de aflorar. Do mesmo modo que as anteriores, ela tem uma dosagem exata para que se desenvolva uniformemente sem que se torne uma viagem sonora entediante. Suas variações são, aliás, o que mantém a história, ali contada, tão convidativa.

8. II - After My Suicide (The Lost Land) - Juntamente com a faixa anterior, esta ultrapassa os 11 minutos de duração. É a segunda parte da epopeia, onde o herói chega ao seu regozijo. Após tantas perdas e angústias, parece haver um contentamento, uma sensação de tranquilidade. Nada mais dói. Nada mais é laborioso. Há luz, há cores, há sons agradáveis vindo de todas as direções. Há, enfim, alívio. O piano, marcante, dá continuidade na caminhada rumo à terra da pós-existência. Os riffs de guitarra trafegam com intensidade pelas vielas do, ainda, desconhecido. A bateria e o baixo manifestam entrosamento ideal com o que a canção transmite. Aos sete minutos e meio da faixa, a suavidade se assenta belissimamente, refletindo a serenidade alcançada por quem passou a vida toda almejando nada mais que a paz interior. A guitarra dá a melancolia necessária para gerar uma gama de sensações. O piano parece falar com alegria, anunciando o remanso, enfim, encontrado.

9. III - New Meaning - E, em sua quietude, o despertar. Quando se chega ao fim de tudo, há - independentemente das crenças e fés - um renascer. E, aquele que sofreu severamente em vida, pôde, finalmente, olhar para si mesmo. Essa percepção profunda o fez compreender que a morte nada mais é que o cessar de seu eu. O eu imerso em angústia, desespero e dor. Ao matar a si, matou tudo que o atormentava. Agora, sob seu olhar límpido, consegue enxergar o que existe, de verdade, por debaixo de toda dor e sofrimento. Um novo eu, o autêntico, o único, que foi massacrado, soterrado e limitado pela agonia de existir, meramente existir, ao invés de viver, de fato. Não mais será assim, porque jaz aquele e renasce este, em um novo significado.

Assim como em seus álbuns anteriores, Unguilty ingressa Gray em temas existenciais, profundos, que assombram aqueles que tiveram seus olhos marejados pela escuridão. No entanto, ele é um álbum com passagem de ida, mas, também, de uma volta. Não ao momento em que se estava, mas a um novo momento. De forma incrível, Gray traz a dor e também o alívio. A fadiga e o descanso. O nada e o tudo. E, principalmente, o fim e o início, exatamente nesta ordem.