sábado, 1 de abril de 2023

22 anos de Death - Pierce Me

 


Quando se fala em Depressive Suicidal Black Metal, Silencer é comumente a banda mais citada, possivelmente, devido a figura impactante de seu vocalista Nattramn, mas, para além da parte visual chocante associada a ele, o motivo real é que esta banda trouxe uma obra-prima em seu álbum de estreia e que soava muito diferente do que era encontrado em bandas de Black Metal na época.

Formada inicialmente pelo guitarrista Leere, no ano de 1995, Nattramn se juntou à banda alguns meses depois e ela se consolidou em um duo. Em 1998 gravam uma demo da música 'Death - Pierce Me', evidenciando os vocais agonizantes e afogados em um profundo sofrimento por Nattramn, e a melancolia muito bem trabalhada sonoramente por Leere. Esta música veio a se tornar o nome do primeiro e único álbum da banda, lançado em 1 de abril de 2001, e que teve a faixa-demo incluída em uma nova versão. Este álbum é realmente um material sonoro bastante difícil de digerir, no entanto, é um dos essenciais do DSBM e um dos poucos que se tornaram amplamente conhecido nesse meio.

Death - Pierce Me: A música homônima ao álbum inicia-se com um riff suave e cativante onde engana o ouvinte que desconhece o que está por vir. O ponto alto é justamente quando Nattramn surge com seus lamentos rasgando a garganta e implora pela morte. A parte instrumental é muito bem encorpada, com belos riffs e solos de guitarra, marcantes levadas de bateria e linhas de baixo que, embora caminham por vias uniformes com os acordes de guitarra, são bastante expressivos. A finalização dessa música, bem como de todas as outras do álbum, é algo muito interessante, fecha-se de forma precisa.

Sterile Nails and Thuderbowels é a canção da banda que ganhou maior destaque e, sem dúvidas, é esta a música que evidencia a sublime musicalidade de Leere, afinal, se não fosse por ele, provavelmente, este álbum não teria entrado na história como um clássico do DSBM. Ele fornece uma majestosa atmosfera para as lamúrias atormentadoras de Nattramn, que se estivesse vociferando suas dores sem música, obviamente, não soaria como música. A união musical desses dois é uma expressão sincera de como a boa música pode surgir quando há fidelidade naquilo que se quer transmitir.

Taklamakan é, geralmente, a que mais atrai as pessoas porque, supostamente, Nattramn estava se cortando severamente e engasgando-se durante a gravação dela. É possível ouvir esses sons de forma nítida. Os riffs de baixo que abrem a canção também são bastante marcantes e mantém o ouvinte atento, apenas aguardando o que está por vir. Logo a música explode e, dolorosamente, os traumas existenciais de Nattramn eclodem junto. Os riffs de guitarra são simples, mas muito bem inseridos e se complementam com a bateria bastante rápida. Nessa música Nattramn vai ao extremo, como se estivesse em seu nível máximo de insanidade.

The Slow Kill In The Cold parece ser um contraste à faixa anterior e, com um fluxo lento, suave e melancólico de sintetizador, conduz o ouvinte a uma certa calmaria. Mas, antes mesmo do ouvinte poder imaginar uma paisagem menos sufocante que fôra criada por esta faixa, é novamente lançado às angústias lacerantes de Nattramn que se seguem pela faixa seguinte.

Shall Lead, You Shall Follow mantêm a rapidez rítmica incessantemente. É uma viagem sonora em velocidade, mas sem perder o ar desesperador que paira sobre todo o álbum.

Feeble Are You - Sons Of Sion encerra o álbum e é uma canção executada apenas no piano trazendo consigo a sensação de uma certa calmaria depois que não existe mais nada a ser destruído, pois tudo está morto, terminado, encerrado.

 

O que tornou a banda conhecida no meio do Black Metal foram os vários rumores, suposições e lendas que se mesclaram a eventos reais ocorridos com Nattramn. Nattramn não queria apenas expressar sua dor e angústia através de suas letras e seus vocais, ele queria que a música soasse o mais real possível para que o ouvinte pudesse sentir quão desesperado ele estava. E ele decidiu se automutilar antes e durante as gravações de cada faixa. Seus gritos eram de extrema dor, uma mistura do que ele estava sentindo fisicamente naquele momento junto com as dores mentais que ele já arrastava por anos. Gritos, urros, choros e sons de ânsia de vômito e engasgamento podem ser ouvidos nas músicas. Esses detalhes incomuns somaram para que os críticos descreverem a música de Silencer como ruídos tolos e sem graça, mas, quando se olha para as características estéticas que são tecidas a partir da subjetividade emocional complexa de Nattramn e Leere, fica claro que todos os instrumentos, as falas, lamentos, urros e gritos sobem do mais profundo poço onde habitam os seres massacrados pela existência humana. Pouco tempo após o lançamento do álbum, Nattramn foi encaminhando para um hospital psiquiátrico em período integral de internação, e a banda encerrou atividades após esse evento. Independente dos vários boatos, inverdades e datas imprecisas, o fato é que em suas músicas Nattramn expressou todo o seu desespero e sua insatisfação para com a vida e com o mundo, isso de maneira bastante direta. Ele enfatizou a natureza de seus gritos estridentes, de alguém que estava sofrendo e sendo atormentado incansavelmente. Uma foto de Nattramn acabou sendo disseminada junto do álbum e, nela, ele se encontra com uma máscara ensanguentada e com bandagens manchadas de sangue nas mãos, nas quais aparecem pés de porco amarrados. Propagou-se que Nattramn se torturava durante as gravações das músicas e acabou amputando as mãos para substituí-las pelos pés de porco, mas, o que ele fez, de fato, foi amarrar com as bandagens os pés de porco às mãos. Mesmo vinte anos após seu lançamento, ainda há quem tache este álbum como uma peça horrível e que deve ser esquecida, como algo que deve ser retirado do Black Metal - a banda sempre disse fazer Black Metal e nada além -, mas não, não há motivos para essas duras críticas quando se analisa a banda, o álbum, as expressões ali colocadas sem vestimentas. Essas melodias foram arrancadas de momentos altamente emocionais e genuínos. Elas se uniram para formar uma camada crua, porém reveladora e intrigante. As letras são muito pessoais e/ou confessionais, que Nattramn escreveu para exorcizar seus demônios mais terríveis. Isso pode ser lido, escutado e mesmo visualizado - em paisagens mentais - como um vislumbre de momentos específicos da vida de um homem atormentado pela dor, pela loucura, pela existência cruel onde o sofrimento é imensurável. Há muita crueza e mensagens diretas em suas composições, mas, também, há espaço para abstrações. As letras e as melodias são muito mais emocionais do que se pode enxergar de início, e há imagens subjetivas e extremamente pessoais que não se pode encontrar na maioria das músicas de outras bandas do gênero. Nattramn e Leere uniram a profundidade dolorosa e escura de si mesmos, do sofrimento pessoal, e sangraram isto tudo em um estúdio de gravação.  Não existiu um objetivo, usando essa linguagem direta ou abstrata, de evocar algo, mas sim de expurgar. Expurgar tudo que corroía internamente e sangrava para além da carne. Tanto é que este álbum não pode ser tido em meio termo, por isso, ou se gosta ou não se gosta dele. O ouvinte vai defini-lo de acordo com o que se deseja capturar dele e de como pode sentir empatia por estes ou quaisquer outros músicos, pois as músicas deste álbum se manifestam como instantâneos pessoais de estados emocionais extremos e narrativas sombrias que procuram falar em uma linguagem de angústia, dor, desespero, que pode ser atraente ao ouvinte porque este pode ou não ter vivenciado momentos semelhantes.

Para o Depressive Suicidal Black Metal este é um álbum de extrema importância e que agrega, definitivamente, aos álbuns onde a dor é muito palpável e para além de meras impressões.


Discografia:

Death, Pierce Me (demo) [1998]

Death, Pierce Me (álbum completo) [2001]


• Fotos de Nattramn disponibilizadas no 20º aniversário do álbum


Obs: Vale reforçar que as imagens que circulam na internet de Nattramn sem bandagens, não é o Nattramn do Silencer, mas sim Rikard Bjernegård, da banda Frostrike. Ele também usou o pseudônimo Nattramn em sua banda, e, como ela também é uma banda de Black Metal sueca, a internet fica vinculando ambos como se fossem a mesma pessoa, e, por consequência, muitas pessoas continuam propagando esse erro até hoje.

sábado, 18 de março de 2023

Depressivos Hinos Suicidas

Com o intuito de dar suporte às bandas da cena brasileira de DSBM, nós estamos novamente trilhando o caminho das compilações. Nesta etapa, bandas da cena se juntam cada uma com uma canção que resulta em um conjunto de belíssimos e Depressivos Hinos Suicidas. A arte ficou por conta de Helder Ribeiro, e completa o conceito proposto para esta série de compilações.

Pensar sobre nossa existência sempre nos leva a uma dura verdade: a morte. Inevitável, ela não poupa a ninguém, mas, e quando o indivíduo a deseja? Diante do fardo imposto pela vida, chega-se a um ponto onde a dor sobrepõe a chama de vivacidade, alegria ou qualquer outra sensação de acalento. Por mais que se busque um pouco de alívio, nada parece cooperar para este resultado. Assim, os dias seguem, monótonos, sem nada de novo - embora a dor, esta sempre consegue se assentar mais e mais nos mínimos espaços que encontra. Absorto, em sua profunda introspecção, o indivíduo se depara com a única certeza da vida: Todos Os Caminhos Te Levam A Morte.


Depressivos Hinos Suicidas - Vol. I - Todos Os Caminhos Te Levam A Morte

1. Clonazepam - Manhã Traumática
2. Neural Oestridae - We Are Nothing
3. Rope - Asi
4. Soturnez - Decomposição
5. Freak Funebre - Distimia
6. Mepth - Fazia Frio
7. Angústia - Rasuras Da Dor
8. Drowned - Drunk And Dead Inside
9. Abismika -  Pesadelo Definitivo
10. Autodestrutivo - Morto Por Dentro, Sangrando Por Fora
11. Funesto - Todos Os Caminhos Te Levam A Morte

Agradecimento às bandas que participaram, às páginas DSBM Images, DSBMemes e DSBMpédia; aos canais DSBM Songs e Depressedy DSBM; aos blog Discografia do Metal Negro e Depressedy DSBM e, em especial, ao artista Helder (Natterskrek) pela arte de capa. Também agradecemos ao Sergio (Fúnebre) por ceder o uso do título de sua música como subtítulo deste volume.

Este 1º volume é dedicado a artistas da cena que já faleceram. Leandro (Lobo) da banda Angústia, que faleceu em 2016; Ricardo Almeida (Chackal) da banda Rope, que faleceu em 2018; e Alissa S. da banda Clonazepam, falecida em 2021. Que possam descansar, finalmente, em paz.

Use fones de ouvido e aprecie sem moderação!

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sábado, 11 de março de 2023

Entrevista com Lúgubre e Mad

No ano de 2020, eu (Lúgubre) e Mad participamos de um podcast distribuído no Spotify. Atualmente ele foi encerrado, mas, na ocasião, era feito por um grupo de amigos que falavam sobre música em geral. Cada episódio abordava um gênero musical e, com frequência, haviam músicos de diversas bandas dentro do Rock e Metal que eram convidados a fazer parte do bate-papo. Foi uma surpresa para mim e para o Mad tal convite, visto que o DSBM é um tipo de música desconhecido. No entanto, aceitamos o convite, justamente, por ser um tipo de música onde há pouquíssima informação sobre, mesmo na internet. Assim, falamos um pouco sobre este subgênero que muito apreciamos. É evidente que num único episódio, de cerca de uma hora, seria impossível falar do DSBM em toda sua abrangência. Então, foi algo bem resumido, mas procurando passar por pontos importantes. Tanto eu quanto o Mad temos nossas limitações na dicção, mas, ainda assim, engolindo a ansiedade, participamos. Aqui segue nossa participação como entrevistados de forma escrita. Não está na íntegra. No final do texto estará disponível o áudio completo para quem se interessar em escutar toda a entrevista.

 

Entrevistador 1: Pra começar a falar de DSBM, trago a teoria de Durkhein. Durkhein aborda o suicídio como qualquer caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo, que seja executado pela vítima e que ela saiba que o fim seria esse resultado: a própria morte. Ainda, no livro de Durkhein, ele explana outros assuntos que tem relação com o suicídio, como a regionalização. Como em países mais frios, com noites mais longas, dias mais escuros, tendem a ter uma taxa mais alta de suicídio. Vocês conseguem enumerar algumas bandas de DSBM que refletem isso nas letras?

Mad: Até a cor, a cor do ambiente, mais escuro, acinzentado, pode influenciar no suicídio. O Lúgubre escreveu algo sobre isso e pode falar melhor sobre.

Lúgubre: Podemos usar a América Latina mesmo como comparação. Todos os países daqui, apesar de não ter essa relação com o frio - a não ser o Sul do Brasil, mas cujo é um frio suportável-, tem a questão da pobreza e desigualdade. E isso também influencia no suicídio. Claro, pessoas ricas ou milionárias podem ser alvo do suicídio, no entanto, a pobreza pesa bastante nisto, sem dúvidas. E isso influencia aqui, no caso, dos países da América Latina. No caso dos países nórdicos, especialmente na Suécia - que acredito ser o berço do DSBM -, tem esse fator do frio, e também do crescimento das cidades. Há ainda a questão dos jovens que se sentem perdidos. Na Suécia, apesar de ser um país rico, com uma taxa alta de desenvolvimento, há uma solidão entre os jovens. Também, não há muito isso de falar sobre o futuro. Então os filhos têm que "se virar". E isso influi muito sobre os adolescentes. Muitas bandas como Lifelover, Apati e Ofdrykkja falam disso em suas letras. Sobre concreto bruto - a cidade com suas construções crescentes - que tira a visão da natureza. E, também, sobre um sufocamento que recai sobre a rotina de ter que estudar, trabalhar e sobreviver. Não há espaço para algum lazer. Então acabam recorrendo às drogas, lícitas e/ou ilícitas, medicamentos... e tudo isso reflete nas letras. Todas essas bandas, chamadas de "DepressiveRock/Narcotic Metal", trazem essa questão à tona. Ainda, sobre essa questão de regionalização, o Japão é outro exemplo. Lá também tem muitas bandas -­ algumas que nem mesmo usam o termo DSBM, mas abordam todos esses temas, já que lá também tem um índice alto de suicídio. Um fator que pesa é este de ter que ser o melhor, ter uma vida bem-sucedida, a qualquer custo. E, o interessante, é que as bandas de cada país expõem aquilo que é mais pesado na sociedade que a pessoa está inserida. No DSBM isso é muito evidente, expor o que o indivíduo sente de acordo com a sua própria realidade.

 

Entrevistador 1: Podemos começar a falar do início do DSBM. A primeira banda, de fato, foi Silencer ou Lifelover?

 Lúgubre: Traçar o início de gêneros musicais é difícil; de subgêneros é ainda mais. O que ocorre é que na década de 90 já existiam muitas bandas que faziam uma sonoridade Black Metal, misturando com o Ambient, com o Atmospheric, até com o Death Metal, como o caso do Malvery.

 Mad: E muitas eram chamadas de Black Doom.

 Lúgubre: Todas as bandas da década de 90 - eu costumo rotular como "Proto-DSBM"-, embora não usassem o termo DSBM, todas já abordavam os temas que vieram ser comuns no DSBM: O desejo pela morte, o suicídio, os transtornos mentais. Bandas como Xasthur, fundada por Malefic e Malvery - banda canadense onde o vocalista expôs tudo o que ele estava sentindo no momento da gravação, e que veio a lançar um único álbum, e antes de chegar a ver o lançamento deste álbum o vocalista cometeu suicídio - são exemplos. Então, essas bandas da década de 90, Xasthur de 1995, Malvery de 1993 e Abyssic Hate de 1993 já estavam moldando o que viria ser o Depressive Suicidal Black Metal. O Silencer surgiu em 1995, mas, somente em 1998 Nattramn entrou na banda, e então começou a compor e se expressar. O Silencer é citado como a primeira banda porque, em 2001, lançaram o álbum que de fato mudou a cena naquele momento. É uma banda do tipo que não existe meio termo: ou é boa ou não é; quando alguém escuta pela primeira vez. Muitas pessoas, inclusive, gostam de exaltar apenas o instrumental e criticar os vocais de Nattramn. Mas a banda é uma dupla, e talvez não existiria a banda se não fosse a perfeita junção de ambos os envolvidos.

 

Entrevistador 2: Foi o Nattramn que começou com o vocal mais gritado?

Lúgubre: Com esse tipo de vocal, sim. Enquanto os vocalistas tradicionais de Black Metal faziam um vocal agudo e mas odioso, ele dosava a dor literal com o ódio, resultando num vocal desesperador. E ele não se importava em como cantar, apenas deixava sair de forma espontânea. Foi uma forma que ele optou por cantar e se expressar. Embora eles fizessem Black Metal, e nunca tenham reivindicado o termo DSBM pra si, eles também não eram bem aceitos no meio do Black Metal. Mas, haviam algumas pessoas que já estavam começando a recebê-los e estavam se sentindo expressadas pela banda.

Lifelover surgiu em 2005, não foi a pioneira do DSBM, mas foi uma das bandas importantes no subgênero. Jonas e Kim fundaram a banda e dosaram vários elementos, como a levada Pós-punk e Black Metal, o que resultou em um contraste interessante. Músicas dançantes, mas com letras falando de temas mais pesados e tabus, com uma dose de sarcasmo e ironia.

 

Entrevistador 2: Então o Pós-punk influenciou o DSBM?

Lúgubre: Influenciou mais essas bandas que são chamadas de "Depressive Rock/Narcotic Metal" como Lifelover. Anos depois, Apati, e, quando Obehag morreu, Pessimistem formou a Ofdrykkja. E muitas outras foram surgindo e seguindo nessa linha com influências do Pós-punk. Podemos dizer que dentro do próprio DSBM tem algumas vertentes, como essas bandas suecas que se focaram numa sonoridade até meio dançante, em contraste com temas mais pesados. A sonoridade é menos "suja" também, comparada com o DSBM das primeiras bandas que seguiam mais pro Black Metal. Essas, da cena sueca, se focam mais em temas como a melancolia urbana, adicção de álcool e outras substâncias, autoagressão e relacionamentos interpessoais.

 

Entrevistador 2: E o DSBM é algo bem íntimo, né? Algo mais da pessoa mesmo.

Lúgubre: Sim, é algo bem pessoal. Claro, a partir do momento que você expõe isso, como na internet, há a consequência de alguém escutar. Mas o objetivo é expressar algo seu para você mesmo. Uma dor sua que você tenta manifestar através da música; isso define o DSBM. Por isso é muito comum as bandas serem de um só membro. Geralmente é uma pessoa solitária que tenta expor suas emoções.

Mad: Por isso é até difícil de digerir o gênero e tornar ele popular, pois é uma dor tão pessoal, algo tão íntimo que você não espera que outra pessoa escute e entenda o que você queria passar, de uma forma tão sincera. O DSBM é algo que você está fazendo mais pra você do que para os outros. É a sua válvula de escape, é dizer o que você sente, sem se preocupar com a opinião dos outros. Você faz por você, para o seu bem. Por isso, também, é difícil de ter uma banda de DSBM com 1000 visualizações. Você faz com intuito de só você escutar, ou nem mesmo você escutar depois. Você lança para dizer pra si mesmo que expôs aquilo pra fora, e não para ficar famoso com aquilo. É uma válvula de escape apenas.

 

Entrevistador 2: Tem pessoas que vêem o DSBM como romantização da tristeza, do suicídio. Mas não é isso. É mais algo da pessoa mesmo querendo se expressar sinceramente, né?!

Mad: Até porque não faz muito sentido, quem em sã consciência se vangloriaria de ter depressão, de pensar em se matar? Não faz sentido. A gente que está nesse meio se sente destruído por passar por essas coisas, e não deseja isso a ninguém. Daí ver alguém de fora dizer que estamos romantizando o suicídio é o que deixa a gente ainda mais triste.

Lúgubre: E as pessoas se baseiam isso em outros gêneros de música. Por exemplo, há gêneros que falam da tristeza, mas é da tristeza em si, não de coisas pesadas como é característico do DSBM. O DSBM vai a fundo, falando de coisas que é até difícil colocar em palavras, e por isso se une a vocais desesperados. É algo desesperador e que você não molda, não pensa em como vai cantar, apenas sai de forma sincera ali no momento.

 

Entrevistador 2: Qual a banda pioneira de DSBM no Brasil?

Lúgubre: Pioneira cantando em inglês é Thy Light, mas eles nunca se colocaram como DSBM. Desde o início já caminhavam com o Atmospheric Black Metal. Já era um som mais fácil de digerir, e por isso teve um alcance maior. Cantando em português existem muitas bandas que surgiram, e por isso não tem como identificar apenas uma. Neblina Suicida, Lamúria Abissal e Funesto estão entre essas primeiras.

Mad: E tem Vesano também.

Lúgubre: Essas bandas também eram distintas, cada uma seguindo com suas próprias características dentro do DBSM.

 

Entrevistador 2: Tem bandas brasileiras que vêm chamando a atenção de vocês, atualmente?

Mad: Frio Insólito, que lançou singles entre 2016 e 2017, e agora em 2020 lançou seu primeiro EP. Abismika, que vem fazendo um trabalho excelente. E Morte Rubra, onde o vocalista e letrista Alan, para mim, é o melhor que surgiu nos últimos tempos dentro do Black Metal em geral.

Lúgubre: Nattag, que é de Ponta Grossa, Pr, que fez algo interessante, uniu o Noise ao DSBM, algo meio experimental e ficou um som muito bom. A Unguilty, que é de Curitiba, e tem uma sonoridade flertando muito com o Doom, somando linhas de piano, passagens mais limpas e mais pesadas. Praticamente todos os dias tem bandas novas surgindo, justamente para a pessoa poder se expressar e, por consequência, também tem muitas pessoas que buscam por sons assim para escutar. E quem escuta, muitas vezes, é influenciado a criar seu próprio projeto também.

Mad: Rolou uma espécie de boom entre 2014 a 2016 por aqui. Depois muitas bandas foram encerrando, algumas devido ao integrante cometer suicídio. Então em 2019/2020 começou a renascer a cena e muitas bandas novas foram se formando.

 

Entrevistador 2: Tem outro derivado desse subgênero, do DSBM?

Lúgubre: Então, algumas bandas suecas se focaram mais na melancolia urbana. Muitas tinham membros ainda adolescentes quando foram formadas e, com isso, como não conseguiam se expressar de outra forma, eles colocavam tudo na música. Essa linha é chamada de Depressive Rock/Narcotic Metal. Há bandas que tem elementos mais atmosféricos como Woods Of Desolation, ColdWorld, Austere, aqui no Brasil As Long As I Can (ALAIC), Entardecer e Rope, por exemplo. Tem outras flertando mais com o Doom como as brasileiras HatefulAgony, Allonair e a Unguilty. E tem as bandas que já partiram para o Post Black Metal, com um som mais limpo, com guitarras mais limpas e com distorções menos pesadas como as brasileiras Gray Souvenirs, Help, Gulag, Depht. Essas últimas, inclusive, surgiram no DSBM, mas com um som mais pro Post Black Metal - também chamado de Blackgaze - no decorrer dos seus lançamentos. Isso ocorreu porque o DSBM meio que abriu as portas para essa galera, já que o Blackgaze também é discriminado dentro do Black Metal, por soar mais limpo, mais melancólico e menos pesado, e também por ser algo novo no meio. O DSBM, à propósito, é um subgênero bem novo ainda.

Mad: O Lúgubre e eu organizamos compilações com bandas exclusivamente nacionais. Fazemos uma espécie de curadoria, e vamos atrás das bandas.

Lúgubre: Eu gosto muito das bandas que cantam em português, isso para qualquer gênero. Mas aqui há um grande preconceito com bandas que cantam no nosso idioma nativo. No DSBM, eu aprecio muito isso porque é algo muito difícil cantar no próprio idioma, falar de algo seu, tão pesado. Outras pessoas daqui, que escutarem algo que você canta, vão compreender de imediato. E gera uma certa vergonha, digamos assim, no sentido de ser algo tão pessoal seu, e que outra pessoa pode vir a ouvir e até rapidamente te criticar, como infelizmente ocorre, algumas vezes. Logo que conheci o Mad começamos a pensar nisso de unir bandas em uma compilação, com a intenção única de dar suporte às bandas, que talvez não teriam algum alcance sozinhas, justamente pelo pouco alcance do DSBM em geral. Nessas compilações, bandas novas e as mais antigas da cena se somaram. Tem muitas bandas boas no Brasil e nossa intenção é levar isso às pessoas que curtem esse tipo de música, para não ficar aquilo de só escutar bandas de outros países e ignorar o que temos aqui também e com boa qualidade.

 

Entrevistador 2: Tem uma curiosidade que é um Split do Happy Days com o Deadspace, onde o A. Morbid canta em espanhol.

Lúgubre: Outra curiosidade é que há uma demo, do início, do Happy Days onde o A. Morbid canta em norueguês. Ele fez isso como uma homenagem às bandas que curtia, e eram da Noruega. E na época, também, ele estava aprendendo esse idioma e quis testar em suas primeiras músicas. O interessante do espanhol é que tem um alcance muito grande no DSBM. Talvez o público maior do DSBM esteja em países onde a língua espanhola seja nativa. Basta olhar comentários em vídeos e postagens e ver a quantidade de pessoas desses países comentando. Há uma grande veneração, inclusive, à Nattramn, por esse pessoal do México e de países aqui da América do Sul.

Mad: A cena latina é a mais ativa de todas. Tem muitas bandas e o público consome bastante. Rola, com muita frequência, parcerias entre essas bandas aqui da América Latina. É muito comum ver uma banda mexicana, por exemplo, com algum integrante brasileiro.

 

Entrevistador 2: Eu não tinha essa ideia. Acreditava que eram mais países nórdicos que tinham um maior alcance.

Lúgubre: Isso é um ponto interessante. Porque muitas pessoas não enxergam isso que ocorre aqui mesmo, e por isso a ideia da compilação. Acaba sendo uma forma da cena conhecer mais essas bandas e valorizar, além do fato das que cantam em português você conseguir compreender o que está sendo cantado naquele momento; é algo mais familiar e direto. Isso também é muito gratificante para nós. Receber mensagens nas páginas de alguém dizendo "olha, essa é minha banda, meu projeto e tal", isso é o que nos mantêm seguindo cooperando, de alguma forma. É uma troca. Damos suporte às bandas e elas nos presenteiam com sua arte, que tanto apreciamos. E o DSBM é algo que nos faz seguir sobrevivendo pelos dias também, já que nos identificamos com o que é expressado, e que é tanto negligenciado pela sociedade.

Mad: Ultimamente tem sido mais raro vermos as bandas fazendo Split. Então isso das compilações é algo que junta as bandas também. Já soubemos de membros que se conheceram devido a elas e criaram outras bandas e projetos. Então é gratificante isso.

 

Entrevistador 2:  E sobre esse papo desanimador de dizer que a cena está acabando, ou que não tem mais nada de bom?

Mad: É o mesmo papo de dizer que o Rock já morreu. É realmente desanimador.

Lúgubre: Eu vejo isso como comodismo da galera. É fácil você pegar uma banda do passado, como Black Sabbath ou Metallica, e dizer que não há nada de inovador e bom hoje como era naquela época. Há milhares de bandas surgindo a todo instante e fazendo um som muito bom. Independente do gênero ou subgênero. Mas o comodismo da galera é alto, e preferem fingir que não há nada que presta hoje. Se prendem ao passado para não conhecer algo novo. A cena do Rock e Metal está cheia disso, e acaba até desestimulando outras pessoas no meio, mantendo um ciclo de achar que não há nada de bom nos dias atuais.

Mad: É até uma preguiça de pesquisar. Essa galera não vai atrás e por isso diz que a cena morreu, ou "se não chegou até mim, então não existe". Nós, com a página, tentamos sempre dar foco às bandas novas. Focar nelas. Porque não faz muito sentido você divulgar o que todos no meio já conhecem.

 

Entrevistador 1: Finalizamos a entrevista com indicações de bandas. Lúgubre, o que você indica?

Lúgubre: Indico a banda Alivium, banda brasileira com vocais femininos. E quero dizer que acho muito importante a presença feminina no Metal, e no DSBM não poderia ser diferente! Por enquanto essa banda tem apenas uma música, chamada Vazio, mas em breve a banda lançará um álbum. A vocalista usa o pseudônimo de Das Irrlicht.

 

Entrevistador 1: Muito bom! Meu querido Lúgubre vem aí para mostrar que nem todo sulista é pau no cu. E você, Mad, o que indica?

Mad: Montosse, banda composta por Érdos e Astratta, duas pessoas talentosas na cena e que somam várias bandas. A música é Pois os MortosViajam Depressa.

 

Entrevistador 1: E eu indico Funesto, a música Lembranças de um Suicídio.

 

Áudio com a entrevista na íntegra:





Ou ouça diretamente no Spotify:



Aqui estão algumas playlists no Spotify, para quem já aprecia DSBM e, também, para quem está começando a conhecer o subgênero.

¯ Depressive Suicidal Black Metal

¯ Depressive Rock/Narcotic Metal

¯ DSBM BR


sábado, 18 de fevereiro de 2023

Resenha de Gray - álbum de Unguilty

 

Enquanto o verão tenta soprar sua brisa ardente através do clima frio e chuvoso do leste do Paraná, eu busco por melodias que possam trazer um alívio gélido, ainda assim quente o suficiente para me lembrar que a existência humana consiste de algum equilíbrio entre os opostos. Sim, estou falando de Unguilty, banda de Depressive Doom Metal oriunda da capital mais fria do país: Curitiba. Tão fria quanto a cidade, são as melodias executadas por F. R. - Felipe Ravanello -, o único integrante da banda. Mas, engana-se quem pensa que o fato de ser um só membro faz desta banda algo limitado. Ela expande-se para além dos horizontes. Com seu talento nato, Felipe põe na balança cadenciados riffs de guitarras, linhas melancólicas de piano, baixo nítido e envolvente do início ao fim e bateria marcando uniformemente cada passo melódico das faixas. Seus vocais graves fecham a obra, criando uma atmosfera soturna, densa e imersiva. Ainda, há passagens com vocais limpos, onde cada palavra proferida ressoa majestosamente, completando, assim, as imagens lamentosas criadas em Gray, o 3º álbum de Unguilty. A parte lírica de Gray ficou por conta de Melissa Winter, que belissimamente expressa uma gama de emoções a cada linha. Uma poesia desesperada, agonizante, em desabafos de alguém que busca ferozmente pela luz. De alguém que foi tomado pela escuridão, cegando tudo à sua frente. A produção, gravação e lançamento do álbum fica à cargo do selo Eternal Awake Records. Embora não seja um álbum conceitual - de um modo e outro as faixas se relacionam umas com as outras -, seria um sacrilégio não fazer uma parada por cada uma delas. Então, embarque comigo para essa viagem pelas trilhas da desolação.

 

1. Asleep With The Midnight Sun - Com um suave riff de guitarra entrelaçado com sons de água corrente, que cativa de imediato, a faixa vai crescendo de forma precisa a cada segundo. Acordes suaves, mas, já expressando uma melancolia que prepara para o peso que chega em seguida. Os riffs distorcidos são muito bem encaixados, contrastando com os vocais vigorosos e que exalam o distanciamento da alegria. A letra remete a perdas, abandono, distanciamento. Quando tudo aquilo que trazia uma chama de vida se apaga, o que podemos fazer? Apenas se lembrar. Mas, as boas lembranças podem ser mais dolorosas que apaziguadoras. E a dor segue corroendo internamente. F. R. consegue trazer as emoções à tona de uma forma muito palpável, ainda, mantendo esmera sintonia com cada instrumento que executa. Assim como as demais faixas, ela ultrapassa os 5 minutos, mas é dosada para que não se torne monótona, pelo contrário, há partes mais rápidas que se encontram com as mais calmas e melancólicas, alicerçadas com uma linha de piano que agrega muito mais tristura ao panorama já densamente triste.

2. The Abyss And The Pendulum - A lentidão sonora, característica da banda, traz uma imersão muito maior ao ser evocada logo nos primeiros instantes desta faixa. O sintetizador cria uma imagem lutuosa impossível de se desvencilhar. A bateria acelera o ritmo, mas ainda é lenta o suficiente para que o ar fúnebre permaneça. E, é justamente o que a parte lírica expõe. Quando você não consegue enxergar nada mais a sua frente, quando a escuridão põe uma venda diante de ti, então, para onde ir? A única alternativa, já plantada e regada no decorrer do tempo, se torna um arvoredo em sua mente. Perante o abismo, o corpo, deliberadamente, cai. Não é preciso, sequer, dar o impulso. O cansaço, penetrando dia após dia até os ossos, é suficiente para que o corpo apenas busque seu fim por si só. A mente cessa. Não há porquê resistir. A resignação se assenta para que não haja mais luta alguma, afinal, não há mais físico e mental aptos para qualquer luta que seja. O não existir paira pela eternidade.

3. Coexistence - A canção que traz uma calma, após as duas primeiras mais densas, não deixa de ser tristemente bela e profunda. Com vocais limpos, F. R. recita a dor da partida. Nesse ponto, não é mais a dor de quem partiu, mas sim de quem ficou. O pesar que parece nunca vir a se tornar saudade. Perder alguém é uma dor infindável, que, talvez, seja transformada - externamente - em saudade, em algum momento da vida, mas, a dor em si, esta ainda tem seu assento dentro de cada um de nós. O instrumental é imensamente marcante, com riffs de guitarra que emergem conduzindo a música e levando-a cada vez mais ao lago emocional onde a tristeza preenche incansavelmente. Mesmo nas partes mais rápidas, os riffs seguem acentuados. A saída da velocidade para a sonoridade mais lenta se faz com primor, não há quebra sonora, o que torna a faixa integral com todas suas partes singulares.

4. Gray - O piano, que é o instrumental característico em sonoridades do Depressive Doom, se faz presente aqui logo no início. Com uma bateria cadenciada, ele ressoa lastimavelmente enquanto os vocais limpos são proferidos. As linhas de guitarra, como de praxe, são a guia da desolação. O baixo, aliás, instrumento de maior familiaridade de F. R. (custei a usar esse termo, visto que o músico é multi-instrumentista nato) tem sua marca notavelmente acurada, não só nesta, mas em todas as faixas. A música-título do álbum fala sobre o não-sentir. Quando o indivíduo se encontra morto, em emoções, sentidos e sensações. A paisagem é sempre acinzentada, não há vida, cores, nitidez. As vistas se ofuscam junto à natureza funesta que rodeia a tudo. Estar morto, mas, ainda assim, não estar. A consciência de si, este é o inferno real.

5. Hill House - Seguindo Gray, esta faixa também traz uma suave introdução com piano, acordes limpos de guitarra e vocais imersivos e limpos se abrindo às lembranças, anseios e saudade. A saudade, que outrora sobrecarregava como luto, aqui se faz corpórea. O desejo de poder aliviar as dores de quem estimamos, de reviver o que tivemos, os momentos, os afetos compartilhados, os silêncios. A música segue mais marcante, em sua lentidão expressiva, penetrante, com a bateria agregando o peso exato para chegar ao fundo das emoções mais secretas de nosso âmago. A ambientação, inclusive, é imprescindível para isto. O ar enevoado, abraçando em todas as direções, parece nos levar a um vendaval. Não um vendaval hostil, mas sim aquele preciso, na exata turbulência para que cada partícula do som se mescle ao nosso próprio corpo e mente, talvez, no alto da colina de nossos sonhos soterrados.

6. Rest - Após dores, angústias e pesares, o descanso chega. Esta faixa é toda instrumental, mas, o fato de não ter canto não torna ela inexpressiva. Ela fala, ela ressoa liricamente, ela transmite muitas mensagens, sem nada dizer. Guitarras, baixo, bateria e piano fazem Rest bradar pela vontade de repousar, respirar, encontrar um resquício de serenidade. Do início ao fim, ela consegue colocar isto de forma tangível.

7. I - The Garden Of My Suicide - Embora, à princípio, não seja um álbum conceitual, aqui inicia-se o primeiro capítulo de 3 canções que, por que não dizer, resultam em uma epopeia. Desde a primeira faixa até aqui, as emoções mais obscuras foram trazidas à tona. Não é diferente agora, no entanto, elas estão ainda mais afundadas no desamparo de uma alma que chegou ao seu final, o final por suas próprias mãos. Além da visão enegrecida no nada, as dúvidas de o porquê daquilo, pairam, remoem, disparam sem cessar. A tormenta aumenta, toma proporções inconcebíveis. F. R., com sua voz vigorosa, expressa esse trajeto em meio à desolação de forma esplêndida. As passagens mais calmas não deixam de ter um peso, uma densidade, uma carga suficiente para que a desolação deixe de aflorar. Do mesmo modo que as anteriores, ela tem uma dosagem exata para que se desenvolva uniformemente sem que se torne uma viagem sonora entediante. Suas variações são, aliás, o que mantém a história, ali contada, tão convidativa.

8. II - After My Suicide (The Lost Land) - Juntamente com a faixa anterior, esta ultrapassa os 11 minutos de duração. É a segunda parte da epopeia, onde o herói chega ao seu regozijo. Após tantas perdas e angústias, parece haver um contentamento, uma sensação de tranquilidade. Nada mais dói. Nada mais é laborioso. Há luz, há cores, há sons agradáveis vindo de todas as direções. Há, enfim, alívio. O piano, marcante, dá continuidade na caminhada rumo à terra da pós-existência. Os riffs de guitarra trafegam com intensidade pelas vielas do, ainda, desconhecido. A bateria e o baixo manifestam entrosamento ideal com o que a canção transmite. Aos sete minutos e meio da faixa, a suavidade se assenta belissimamente, refletindo a serenidade alcançada por quem passou a vida toda almejando nada mais que a paz interior. A guitarra dá a melancolia necessária para gerar uma gama de sensações. O piano parece falar com alegria, anunciando o remanso, enfim, encontrado.

9. III - New Meaning - E, em sua quietude, o despertar. Quando se chega ao fim de tudo, há - independentemente das crenças e fés - um renascer. E, aquele que sofreu severamente em vida, pôde, finalmente, olhar para si mesmo. Essa percepção profunda o fez compreender que a morte nada mais é que o cessar de seu eu. O eu imerso em angústia, desespero e dor. Ao matar a si, matou tudo que o atormentava. Agora, sob seu olhar límpido, consegue enxergar o que existe, de verdade, por debaixo de toda dor e sofrimento. Um novo eu, o autêntico, o único, que foi massacrado, soterrado e limitado pela agonia de existir, meramente existir, ao invés de viver, de fato. Não mais será assim, porque jaz aquele e renasce este, em um novo significado.

Assim como em seus álbuns anteriores, Unguilty ingressa Gray em temas existenciais, profundos, que assombram aqueles que tiveram seus olhos marejados pela escuridão. No entanto, ele é um álbum com passagem de ida, mas, também, de uma volta. Não ao momento em que se estava, mas a um novo momento. De forma incrível, Gray traz a dor e também o alívio. A fadiga e o descanso. O nada e o tudo. E, principalmente, o fim e o início, exatamente nesta ordem.

domingo, 3 de julho de 2022

Lifelover

Black Metal: Evolution of the Cult é um livro escrito por Dayal Patterson e lançado em 2013. Patterson contribuiu com vasto material para as revistas Decibel, Terrorizer e Metal Hammer, tendo também publicado outros 2 livros,  Black Metal: The Cult Never Dies Vol. 1 e Black Metal: Into the Abyss. Sendo um grande conhecedor do Metal Extremo, traz uma verdadeira enciclopédia em seus livros, dando foco especial no Black Metal. O livro Black Metal: Evolution of the Cult apresenta mais de uma centena de novas e exclusivas entrevistas com as figuras mais centrais do gênero. É o guia mais completo até agora para esta forma fascinante e controversa de Metal Extremo.

A tradução a seguir se concentra no capítulo 49, onde Patterson traz a banda sueca Lifelover, que, embora tenha uma gama de influências e mix de sonoridades, tem sua base também no Black Metal, sendo uma das representantes do Depressive Black Metal, ou como se intitularam (sarcasticamente) Narcotic Metal.


Dada à miríade de estilos do Black Metal explorado nos anos noventa, talvez fosse inevitável que as bandas que se seguiram dessem um passo adiante e tomassem os elementos centrais como base, ao mesmo tempo em que se mudavam para gêneros inteiramente novos. Se os anos anteriores tinham visto artistas indo o mais longe que podiam do som central do Black Metal enquanto se apegavam firmemente ao ethos satânico/oculto/misantrópico, agora as bandas repensariam até mesmo isso, pegando elementos da forma do Black Metal, mas reconstruindo-os em uma direção emocional, ideológica ou espiritual inteiramente nova. Em certo sentido, é menos uma mudança de forma do que de contexto. Um exemplo antigo é o Neonism de Solefald em contraste com La Masquerade Infernale de Arcturus; enquanto ambos se afastavam consideravelmente da música Black Metal convencional, foi Solefald quem deu um salto mais óbvio em termos de tema e estética.

Em meados dos anos 2000, esse fenômeno estava surgindo com crescente regularidade, sendo o Lifelover, da Suécia, um desses atos fascinantes. Expelidos à existência em 2005, seu relacionamento conflitante com a cena Black Metal os localizou confortavelmente dentro do rótulo “Post-Black Metal”. Como Solefald e Shining, eles carregavam um tom urbano pesado, e onde outras bandas Post-Black como Amesoeurs, Alcest e Fen tendiam a se inclinar para o romântico, pastoral e edificante, apesar de um senso inerente de melancolia, a abordagem do Lifelover era tão cínica como seu nome, sua perspectiva implacavelmente sombria, urbana e fragmentada. Com elementos de Pop, Shoegaze, Depressive Rock e New wave, seu som era em muitos aspectos gloriosamente contraditório, mas os elementos de Black Metal que nadavam nessa estranha mistura são muito menos surpreendentes quando se considera a herança musical dos fundadores da banda.

Iniciada como um duo, a banda era originalmente composta por “B” (nascido Jonas Bergqvist, e também conhecido como Natdall, das bandas ortodoxas de Black Metal Ondskapt, Dimhymn e IXXI) e o ainda mais desajeitado “( )”, também conhecido como Kim Carlsson, das bandas de Depressive Black Metal Hypothermia, Kyla e Life is Pain. Falando com B, em 2010, – que infelizmente faleceu no ano seguinte – rapidamente ficou claro que o início do Lifelover era tão caótico quanto sua música, nascida do desespero e ações destrutivas.

“A Lifelover foi formada em uma manhã de junho de 2005”, explicou. “Eu e ( ) estávamos acordados há muito tempo, bebendo e nos cortando, e toda a casa em que estávamos estava cheia de vômito e sangue. ( ) havia feito alguns vocais adicionais para minha banda de Black Metal Dimhymn para a gravação do [segundo álbum] Djävulens Tid Är Kommen. Por alguma razão, no dia seguinte ao ‘massacre de sangue’ – a primeira vez que nos encontramos – decidimos sentar e tocar guitarra juntos e apenas improvisar com muito delay. Achamos que soava legal, demente e urbano, então gravamos a demo Promo 2005 ali mesmo. Em relação ao nome da banda, uma vez, em 2004, fui chamado de 'Lifelover', em um e-mail por idiota que nem me conhecia, e ele enviou o mesmo e-mail para muitas pessoas e gravadoras. Então nós dois pensamos que poderia ser uma coisa divertida chamar a gravação de Lifelover.”

 

“Quando eu e B nos encontramos pela primeira vez, fomos dar uma volta na zona rural para gravar algumas músicas”, relembrou ( ) sobre o começo da banda, em entrevista por telefone que fiz para a Metal Hammer em 2011. “A primeira coisa que aconteceu foi que nos cortamos. Depois demos um passeio na floresta até ficarmos vazios – você provavelmente pode imaginar, a combinação de perda de sangue e consumo de álcool faz você entrar em uma atmosfera um pouco diferente. Começamos a fazer música e começamos a transformar a casa em que estávamos em algo parecido com um matadouro, as paredes totalmente cobertas de sangue, cada móvel, cada instrumento, tudo. No final, havia mais sangue do que qualquer outra coisa e estávamos atordoados, mas simplesmente sentimos que tínhamos que fazer algo, então começamos a tocar guitarra juntos e foi quando gravamos as duas primeiras músicas que se tornaram Lifelover.”

Extenso e improvisado, a promo da banda não seria um reflexo da direção que a banda estava tomando, e não foi até o ano seguinte que a dupla começou a escrever novas músicas, ao fazê-lo, forjando o som único pelo qual são conhecidos agora. Expandindo para seis partes, o grupo agora viu B manuseando a guitarra, vocais, fala e piano, ( ) responsável pelos vocais principais, H. (“Henrik”) na guitarra base, Fix (“Felix”) no baixo e 1853 (Johan Gabrielson) e LR (Rickard Öström) também contribuíram com os vocais. Juntos, o grupo trabalhou para criar seu álbum de estreia, lançado em 2006 como Pulver, sueco para “pó”. Com material escrito em grande parte de forma individual, a composição foi dominada por B, com ( ), LR e 1853 também contribuindo.

“O novo som realmente começou quando eu e ( ) gravamos as músicas do [Pulver] ‘Nackskott’ e ‘Stockholm’ juntos”, explicou B. “Nós dois sentimos uma grande satisfação com essas músicas e, quando continuei a escrever, segui essa direção, mas também encontrei novas direções ao mesmo tempo, então o processo de escrever Pulver foi muito emocionante, e uma nova maneira de escrever música para mim. Gravamos as músicas durante um período de dois meses e, como você pode ouvir, não nos esforçamos muito para torná-lo um registro perfeito em relação à produção. Foi gravado durante o abuso de álcool e drogas... ( ) gravou os vocais deitado no chão sangrando. Foram dois meses estranhos/doentes.”

Estranho e doentio de fato: construído de uma maneira muitas vezes chocante de recortar e colar vagamente semelhante ao do japonês Sigh, as músicas de Pulver dependiam de justaposição idiossincrática, com passagens de energia estranhamente altas e ritmos quase ska ao lado de seções sombrias e torturantes, a bateria programada complementada por uma série de amostras muitas vezes desconcertantes. A combinação resultante provou ser tão impressionante e incomum quanto as fotografias do nu encharcado de sangue adornando a arte da capa, combinando a experiência Black Metal do membro fundador com uma clara influência de nomes como Joy Division e até The Cure.

“Dinâmica é tudo na música”, considerou ( ). “Para nós é muito fácil escrever algo lento, frio e sombrio, mas queremos um desafio quando escrevemos música, e é mais interessante escrever algo diferente. Não tenho ideia se soa feliz, estranho, louco ou fodido para as pessoas ouvirem – contanto que o resultado final do álbum seja bom, estou satisfeito. [As] amostras que escolhemos principalmente de programas de TV suecos e filmes antigos, são coisas que nós assistíamos enquanto crescíamos. Eu realmente não me lembro como a ideia surgiu, mas descobrimos que fazia tudo parecer mais demente e doentio. Nunca revelamos exatamente de onde vem cada amostra, queremos que as pessoas se perguntem e tentem descobrir por si mesmas, e revelar esses detalhes destrói parte do sentimento místico que elas criam.

“Em relação a [influências], há muitas bandas que me deram essa fagulha”, continuou ele, “mas é muito difícil nomear algumas delas, não sei qual escolher, pois sempre escutei tantos gêneros diferentes. Eu não nos chamaria de Black Metal, mas é claro que eu e ( ) viemos de uma vivência Black Metal, então não é estranho que tenhamos elementos de Black Metal em nosso som.”

Aproveitando ao máximo uma química interna na banda altamente produtiva, Lifelover rapidamente deu seguimento a Pulver com um excelente álbum intitulado Erotik, lançado em 2007. Apesar de ainda soar como se tudo pudesse desmoronar a qualquer momento, Erotik foi, no entanto, um álbum notavelmente mais arredondado e completo, mantendo o som fragmentado e pulsante, mas atingindo profundamente com composições mais emotivas e até angustiantes. Mais uma vez, as músicas foram escritas em grande parte separadamente, com ( ) não mais envolvido ativamente e o vocalista adicional LR aparentemente preenchendo esse vazio.

“Com o Erotik, de alguma forma, queríamos refletir a vida e os ambientes urbanos de Estocolmo”, explica B. “Definitivamente queríamos fazer algo diferente do Pulver, mas ainda temos um pouco desse elemento. Queríamos que tivesse uma sensação ‘narcótica’ também, e liberasse toda a loucura dentro de nós. O som ficou muito mais escuro de várias maneiras.”

Tematicamente, o álbum provou ser quase dolorosamente honesto, dando uma visão do coração da besta com uma abundância de imagens de recortes urbanos sombrios e músicas em inglês - muitas vezes com vocais limpos - pintando um quadro de depressão e abuso de substâncias.

Com títulos das músicas suecas traduzindo para “Um Homem nos Piores Dias de sua Vida”, “A Estrada da Morte”, “Bem-vindo à Cidade do Pó” e “Depressões de Outono”, para citar alguns, certamente não foi um passeio no parque nem para o ouvinte nem para a força criativa dentro da banda.

 

“É bem simples; as letras refletem nossas vidas e nossas vidas consistem principalmente em uma grande quantidade de agonia e angústia”, admite B. “E para reduzir nossa angústia tomamos as drogas necessárias. E é principalmente isso, mas também tocamos em assuntos como amor – ou amor ferido/perdido para ser exato – ódio pela humanidade e pensamentos suicidas. Também escrevemos sobre o entorno urbano e a vida miserável da cidade. Não são letras exatamente positivas, mas elas provavelmente são mais honestas do que a maioria das bandas por aí. Lifelover me reflete totalmente como pessoa; quando você ouve todas as músicas que fizemos e lê todas as letras, você conhece um pouco de mim, em certo sentido, você pode me conhecer dessa maneira. Eu acho que é o mesmo com os outros caras, até certo ponto.”

Nesse sentido, Lifelover refletia um personagem quase esquizofrênico, com passagens otimistas e aparentemente alegres ao lado de momentos de miséria desprezível. São essas partes “felizes” que parecem mais fora de lugar dentro de um contexto de Black Metal, mas ao contrário de, por exemplo, Alcest, mesmo as passagens mais alegres tendem a pingar com uma atmosfera hiperativa e maníaca, alimentada por Prozac.

“Você não pode dizer honestamente que a vida é apenas miséria o tempo todo”, explicou B sobre a escolha de incluir essas emoções (aparentemente) positivas na música. “Para algumas pessoas, pode ser, mas refletimos todos os sentimentos em nossas vidas – mesmo que eu me sinta principalmente uma merda, minha vida também tem seus momentos brilhantes. E acho que esse é o caso de a maioria das pessoas se sentirem para baixo.

 


“Nós nunca gravamos nada sóbrio, nem tocamos sóbrios ao vivo por causa disso, e eu escrevi quase todas as músicas e letras de Lifelover enquanto estava tomando diferentes opioides ou benzodiazepínicos. Assim, sou um viciado - eles me dão inspiração - é trágico, mas o que fazer? Pessoalmente, tomo benzodiazepínicos (principalmente Clonazepam e Diazepam) diariamente para sobreviver à minha grave agonia e costumava tomar opioides diariamente também, mas estou farto de tomá-los diariamente. Sou diagnosticado com Transtorno de Ansiedade Generalizada e tomo vários medicamentos diferentes. Além disso, também uso drogas como anfetaminas, cannabis e opioides de vez em quando... mas faço isso apenas para poder fazer qualquer coisa. Caso contrário, eu estaria deitado na cama o dia todo, me sentindo uma merda. Acho que minha vida não se encaixa na imagem da vida do cara comum, mas vivo o mais ‘feliz’ possível e crio música.”

“Eu sei que o outro guitarrista, H., e nosso baixista Fix estão usando cocaína de vez em quando, eles também estão fumando maconha diariamente, assim como 1853, LR e o baterista Non. Ele também está preso a benzodiazepínicos agora. ( ) também está fumando às vezes, mas ele é meio especialista em cerveja, então eu acho que álcool é o tipo de droga dele, mas eu sei que ele gosta de pílulas e outras coisas também, todos os membros gostam. Tudo é um espelho de nossas vidas.”

Foi um ponto que ( ) confirmou comigo durante nossa entrevista ao Metal Hammer em 2011. “Não consigo me lembrar de nenhuma música que tenhamos gravado sem estar sob influência”, admite ( ). “Geralmente estou bêbado, chapado, de ressaca ou todas as opções acima quando gravo meus vocais e a maioria dos outros tem suas prescrições. B também, ele faz a maior parte da música sentado em sua "pira" com sua guitarra. Nenhum de nós tem uma vida fácil, atualmente dois de nós são sem-teto e temos muitas pessoas próximas a nós em situações ruins, pessoas em hospitais, pessoas se matando, pessoas tentando se matar. É difícil conseguir trabalho aqui, é difícil conseguir moradia. Tenho certeza de que há problemas semelhantes em seu país, mas pessoas de diferentes países lidam com as coisas de maneiras diferentes.”

Os temas gerais de autodestruição foram complementados em um sentido mais literal pela extrema automutilação de ( ), cujo corpo extensamente cicatrizado é evidente na arte da capa e nas fotos promocionais. “Acho que não escrevemos nenhuma letra que refletisse diretamente a automutilação em relação ao corte”, explicou B. “Mas é claro que a maioria das letras é bastante autodestrutiva de uma maneira subliminar. E o que é realmente automutilação? O uso diário de drogas não é bastante autodestrutivo? Mas para o corte, sim, é apenas ( ) quem incentiva isso. Acho que cada um em Lifelover, em algum momento de suas vidas, se cortaram, exceto no caso de ( ) que está em uma posição diferente de nós agora.”

O terceiro álbum da banda, Konkurs (sueco para “falência” ou “insolvência”), foi lançado em 2008, desta vez pela Avantgarde Records. Agora escrito e gravado como um quinteto sem as contribuições de LR, o álbum foi para um som mais fluido, com tristeza substituindo a agitação do antecessor em grande medida. Isso refletiu o longo tempo gasto escrevendo e gravando o disco, e o objetivo de fazer um álbum mais sombrio, depressivo e profissional “sem partes felizes”, cita B. Mais uma vez, títulos de músicas traduzidos apoiam essa afirmação, alguns exemplos de escolha sendo “Tempo de Câncer”, “Minha Ala Hospitalar” e “O Prego no Caixão”.

2009 foi o primeiro ano sem um álbum para a banda por três anos, mas foi notável mesmo assim com o mini-álbum Dekadens lançado pela Osmose Records, que também começou a relançar os dois primeiros álbuns da banda, refletindo a crescente base de fãs. Um esforço inegavelmente forte, Dekadens foi dominado pela escrita de B e provou ser o esforço mais orgânico da banda, apresentando o baterista ao vivo Non (“Andreas”). Tendo apresentado um baterista anterior chamado "S" em shows ao vivo, o material gravado da banda agora foi sustentado por percussão ao vivo pela primeira vez, um movimento que impactou fortemente o tom do grupo.

A adição seria de curta duração, no entanto, e o álbum final da banda, Sjukdom de quatorze faixas (que significa "doença", "enfermidade" ou "moléstia"), lançado em 2011, viu um retorno à percussão programada. Um lançamento um tanto divisivo, que polarizou os críticos graças à sua natureza muitas vezes implacável e impenetrável, principalmente no início do disco. Agora com um grupo reduzido a ( ), B, LR e 1853, também teve participações especiais dos black metaleiros Gok e P.G. da Ancient Death. Mais uma vez B escreveu a maior parte das músicas, embora as letras tenham sido contribuídas por todos os membros envolvidos. A parafernália que acompanhou a versão de edição limitada do álbum (incluindo uma seringa e uma navalha) provou que a banda não se desviou muito tematicamente, mais uma vez transmitindo uma imagem sombria e urbana de depressão, alienação e dependência de drogas.

O álbum seria o último da banda, pois em 9 de setembro de 2011, Jonas “B” Bergqvist infelizmente faleceu. Os membros restantes da banda logo confirmaram os rumores de sua morte com uma declaração que explicava: “Na manhã de sexta-feira, 9 de setembro, B não acordou de seu sono. Ele não tirou a própria vida nem foi vítima de qualquer ação aparente. As autoridades responsáveis ​​ainda estão examinando seu corpo para encontrar a causa exata da morte... Nós, os membros restantes do Lifelover, decidimos colocar a banda para dormir permanentemente. Esta seria a única coisa certa a fazer, considerando que B era o principal compositor de Lifelover.”

Dada a tapeçaria sombria na qual a banda se baseou, bem como o estilo de vida autodestrutivo de seus membros, uma morte dentro do grupo talvez não fosse totalmente surpreendente. Mas, ao que parece, a morte de B não foi auto infligida ou resultado de qualquer substância ilegal. Na verdade, tragicamente, parece ter se originado da medicação prescrita para o próprio Transtorno de Ansiedade que ele havia discutido em nossa entrevista. Uma declaração da família explicava que a autópsia havia mostrado um envenenamento e overdose desconhecidos e que B tomava benzodiazepínicos desde os dezoito anos, aumentando a medicação à medida que seu corpo se acostumava a cada dose.

A vida de B foi claramente conturbada, mas talvez valha a pena lembrar que uma surpreendente positividade surgiu tanto na música de Lifelover quanto nas próprias palavras e comunicações de B (ele foi um dos mais entusiasmados dos envolvidos com este livro, por exemplo), com as muitas conquistas (cinco lançamentos essenciais em tantos anos, mais do que a maioria das bandas alcança em décadas de existência) proporcionando uma satisfação óbvia.

“Nossa base de fãs é muito diversificada”, ponderou. “Nós vemos tantos fãs de Black Metal quanto fãs 'normais' de Rock/Pop... bem, você escolhe, nós vemos todos eles e isso é um grande prazer para nós. Eu vejo isso como um sinal de que nossa música é tão complexa que atrai tantas pessoas diferentes. Mas sim, nós temos muitos fãs de Black Metal, e isso às vezes parece estranho, mas ei, para ser honesto, eu não me importo com quem nos ouve – contanto que nossa música deprave o máximo possível, estamos satisfeitos. ”

Sempre mais do que feliz em polarizar, Lifelover conquistou uma base de fãs impressionante, incluindo fãs e críticos da cena Black Metal. Seu legado é um corpo de trabalho que exibe uma ampla gama emocional rara no metal extremo. “Existem muitos [críticos] por aí”, concluiu B, “mas na maioria das vezes eu apenas rio contra seus ataques ignorantes na internet. Mas também queremos ofender as pessoas, não apenas “encantá-las”. Nós nos tornamos aquela banda que as pessoas amam ou odeiam, e eu pessoalmente acho isso ótimo. Se olharmos um pouco para trás na história da música, são essas bandas que se tornaram grandes e famosas. Mas nosso objetivo é se tornar infames*!”

Missão cumprida, sem dúvida. Descanse em paz B, e descanse em paz Lifelover.

 

NT: *Infamous - se traduz como infames, no entanto, B fez um trocadilho sugerindo tanto se tornarem "não-famosos" quanto "desprezíveis".


Playlist no Spotify com todas as músicas da banda: Lifelover [Todas as Músicas]

Entrevista em vídeo com a banda - com legendas em PT-BR: Entrevista com Lifelover