Quando se fala em Depressive Suicidal Black Metal, Silencer
é comumente a banda mais citada, possivelmente, devido a figura impactante de
seu vocalista Nattramn, mas, para além da parte visual chocante associada a
ele, o motivo real é que esta banda trouxe uma obra-prima em seu álbum de estreia e que soava muito diferente do que era encontrado em bandas de Black
Metal na época.
Formada inicialmente pelo guitarrista Leere, no ano de 1995,
Nattramn se juntou à banda alguns meses depois e ela se consolidou em um duo.
Em 1998 gravam uma demo da música 'Death - Pierce Me', evidenciando os vocais
agonizantes e afogados em um profundo sofrimento por Nattramn, e a melancolia
muito bem trabalhada sonoramente por Leere. Esta música veio a se tornar o nome
do primeiro e único álbum da banda, lançado em 1 de abril de 2001, e que teve a faixa-demo
incluída em uma nova versão. Este álbum é realmente um material sonoro bastante
difícil de digerir, no entanto, é um dos essenciais do DSBM e um dos poucos que
se tornaram amplamente conhecido nesse meio.
• Death - Pierce Me: A música homônima ao álbum inicia-se
com um riff suave e cativante onde engana o ouvinte que desconhece o que está
por vir. O ponto alto é justamente quando Nattramn surge com seus lamentos
rasgando a garganta e implora pela morte. A parte instrumental é muito bem
encorpada, com belos riffs e solos de guitarra, marcantes levadas de bateria e
linhas de baixo que, embora caminham por vias uniformes com os acordes de
guitarra, são bastante expressivos. A finalização dessa música, bem como de
todas as outras do álbum, é algo muito interessante, fecha-se de forma precisa.
• Sterile Nails and Thuderbowels é a canção da banda que
ganhou maior destaque e, sem dúvidas, é esta a música que evidencia a sublime
musicalidade de Leere, afinal, se não fosse por ele, provavelmente, este álbum
não teria entrado na história como um clássico do DSBM. Ele fornece uma
majestosa atmosfera para as lamúrias atormentadoras de Nattramn, que se
estivesse vociferando suas dores sem música, obviamente, não soaria como
música. A união musical desses dois é uma expressão sincera de como a boa
música pode surgir quando há fidelidade naquilo que se quer transmitir.
• Taklamakan é, geralmente, a que mais atrai as pessoas
porque, supostamente, Nattramn estava se cortando severamente e engasgando-se
durante a gravação dela. É possível ouvir esses sons de forma nítida. Os riffs
de baixo que abrem a canção também são bastante marcantes e mantém o ouvinte
atento, apenas aguardando o que está por vir. Logo a música explode e,
dolorosamente, os traumas existenciais de Nattramn eclodem junto. Os riffs de
guitarra são simples, mas muito bem inseridos e se complementam com a bateria
bastante rápida. Nessa música Nattramn vai ao extremo, como se estivesse em seu
nível máximo de insanidade.
• The Slow Kill In The Cold parece ser um contraste à faixa anterior
e, com um fluxo lento, suave e melancólico de sintetizador, conduz o ouvinte a
uma certa calmaria. Mas, antes mesmo do ouvinte poder imaginar uma paisagem
menos sufocante que fôra criada por esta faixa, é novamente lançado às
angústias lacerantes de Nattramn que se seguem pela faixa seguinte.
• Shall Lead, You Shall Follow mantêm a rapidez rítmica incessantemente.
É uma viagem sonora em velocidade, mas sem perder o ar desesperador que paira
sobre todo o álbum.
• Feeble Are You - Sons Of Sion encerra o álbum e é uma canção
executada apenas no piano trazendo consigo a sensação de uma certa calmaria
depois que não existe mais nada a ser destruído, pois tudo está morto,
terminado, encerrado.
O que tornou a banda conhecida no meio do Black Metal foram
os vários rumores, suposições e lendas que se mesclaram a eventos reais
ocorridos com Nattramn. Nattramn não queria apenas expressar sua dor e angústia
através de suas letras e seus vocais, ele queria que a música soasse o mais
real possível para que o ouvinte pudesse sentir quão desesperado ele estava. E
ele decidiu se automutilar antes e durante as gravações de cada faixa. Seus
gritos eram de extrema dor, uma mistura do que ele estava sentindo fisicamente
naquele momento junto com as dores mentais que ele já arrastava por anos.
Gritos, urros, choros e sons de ânsia de vômito e engasgamento podem ser
ouvidos nas músicas. Esses detalhes incomuns somaram para que os críticos
descreverem a música de Silencer como ruídos tolos e sem graça, mas, quando se
olha para as características estéticas que são tecidas a partir da
subjetividade emocional complexa de Nattramn e Leere, fica claro que todos os
instrumentos, as falas, lamentos, urros e gritos sobem do mais profundo poço
onde habitam os seres massacrados pela existência humana. Pouco tempo após o
lançamento do álbum, Nattramn foi encaminhando para um hospital psiquiátrico em
período integral de internação, e a banda encerrou atividades após esse evento.
Independente dos vários boatos, inverdades e datas imprecisas, o fato é que em
suas músicas Nattramn expressou todo o seu desespero e sua insatisfação para
com a vida e com o mundo, isso de maneira bastante direta. Ele enfatizou a
natureza de seus gritos estridentes, de alguém que estava sofrendo e sendo
atormentado incansavelmente. Uma foto de Nattramn acabou sendo disseminada
junto do álbum e, nela, ele se encontra com uma máscara ensanguentada e com
bandagens manchadas de sangue nas mãos, nas quais aparecem pés de porco
amarrados. Propagou-se que Nattramn se torturava durante as gravações das
músicas e acabou amputando as mãos para substituí-las pelos pés de porco, mas,
o que ele fez, de fato, foi amarrar com as bandagens os pés de porco às mãos.
Mesmo vinte anos após seu lançamento, ainda há quem tache este álbum como uma
peça horrível e que deve ser esquecida, como algo que deve ser retirado do
Black Metal - a banda sempre disse fazer Black Metal e nada além -, mas não,
não há motivos para essas duras críticas quando se analisa a banda, o álbum, as
expressões ali colocadas sem vestimentas. Essas melodias foram arrancadas de
momentos altamente emocionais e genuínos. Elas se uniram para formar uma camada
crua, porém reveladora e intrigante. As letras são muito pessoais e/ou
confessionais, que Nattramn escreveu para exorcizar seus demônios mais
terríveis. Isso pode ser lido, escutado e mesmo visualizado - em paisagens
mentais - como um vislumbre de momentos específicos da vida de um homem
atormentado pela dor, pela loucura, pela existência cruel onde o sofrimento é
imensurável. Há muita crueza e mensagens diretas em suas composições, mas,
também, há espaço para abstrações. As letras e as melodias são muito mais emocionais
do que se pode enxergar de início, e há imagens subjetivas e extremamente
pessoais que não se pode encontrar na maioria das músicas de outras bandas do
gênero. Nattramn e Leere uniram a profundidade dolorosa e escura de si mesmos,
do sofrimento pessoal, e sangraram isto tudo em um estúdio de gravação.Não existiu um objetivo, usando essa
linguagem direta ou abstrata, de evocar algo, mas sim de expurgar. Expurgar
tudo que corroía internamente e sangrava para além da carne. Tanto é que este
álbum não pode ser tido em meio termo, por isso, ou se gosta ou não se gosta
dele. O ouvinte vai defini-lo de acordo com o que se deseja capturar dele e de
como pode sentir empatia por estes ou quaisquer outros músicos, pois as músicas
deste álbum se manifestam como instantâneos pessoais de estados emocionais
extremos e narrativas sombrias que procuram falar em uma linguagem de angústia,
dor, desespero, que pode ser atraente ao ouvinte porque este pode ou não ter
vivenciado momentos semelhantes.
Para o Depressive Suicidal Black Metal este é um álbum de
extrema importância e que agrega, definitivamente, aos álbuns onde a dor é
muito palpável e para além de meras impressões.
Obs: Vale reforçar que as imagens que circulam na internet de Nattramn sem bandagens, não é o Nattramn do Silencer, mas sim Rikard Bjernegård, da banda Frostrike. Ele também usou o pseudônimo Nattramn em sua banda, e, como ela também é uma banda de Black Metal sueca, a internet fica vinculando ambos como se fossem a mesma pessoa, e, por consequência, muitas pessoas continuam propagando esse erro até hoje.
Com o intuito de dar suporte às bandas da cena brasileira de DSBM, nós estamos novamente trilhando o caminho das compilações. Nesta etapa, bandas da cena se juntam cada uma com uma canção que resulta em um conjunto de belíssimos e Depressivos Hinos Suicidas. A arte ficou por conta de Helder Ribeiro, e completa o conceito proposto para esta série de compilações.
Pensar sobre nossa existência sempre nos leva a uma dura verdade: a morte. Inevitável, ela não poupa a ninguém, mas, e quando o indivíduo a deseja? Diante do fardo imposto pela vida, chega-se a um ponto onde a dor sobrepõe a chama de vivacidade, alegria ou qualquer outra sensação de acalento. Por mais que se busque um pouco de alívio, nada parece cooperar para este resultado. Assim, os dias seguem, monótonos, sem nada de novo - embora a dor, esta sempre consegue se assentar mais e mais nos mínimos espaços que encontra. Absorto, em sua profunda introspecção, o indivíduo se depara com a única certeza da vida: Todos Os Caminhos Te Levam A Morte.
Depressivos Hinos Suicidas - Vol. I - Todos Os Caminhos Te Levam A Morte
No ano de 2020, eu (Lúgubre) e Mad participamos de um
podcast distribuído no Spotify. Atualmente ele foi encerrado, mas, na ocasião,
era feito por um grupo de amigos que falavam sobre música em geral. Cada
episódio abordava um gênero musical e, com frequência, haviam músicos de
diversas bandas dentro do Rock e Metal que eram convidados a fazer parte do
bate-papo. Foi uma surpresa para mim e para o Mad tal convite, visto que o DSBM
é um tipo de música desconhecido. No entanto, aceitamos o convite, justamente,
por ser um tipo de música onde há pouquíssima informação sobre, mesmo na
internet. Assim, falamos um pouco sobre este subgênero que muito apreciamos. É
evidente que num único episódio, de cerca de uma hora, seria impossível falar
do DSBM em toda sua abrangência. Então, foi algo bem resumido, mas procurando
passar por pontos importantes. Tanto eu quanto o Mad temos nossas limitações na
dicção, mas, ainda assim, engolindo a ansiedade, participamos. Aqui segue nossa
participação como entrevistados de forma escrita. Não está na íntegra. No final
do texto estará disponível o áudio completo para quem se interessar em escutar
toda a entrevista.
Entrevistador 1: Pra começar a falar de DSBM, trago a teoria
de Durkhein. Durkhein aborda o suicídio como qualquer caso de morte que
resulta, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo, que seja
executado pela vítima e que ela saiba que o fim seria esse resultado: a própria
morte. Ainda, no livro de Durkhein, ele explana outros assuntos que tem relação
com o suicídio, como a regionalização. Como em países mais frios, com noites
mais longas, dias mais escuros, tendem a ter uma taxa mais alta de suicídio.
Vocês conseguem enumerar algumas bandas de DSBM que refletem isso nas letras?
Mad: Até a cor, a cor do ambiente, mais escuro, acinzentado,
pode influenciar no suicídio. O Lúgubre escreveu algo sobre isso e pode falar
melhor sobre.
Lúgubre: Podemos usar a América Latina mesmo como
comparação. Todos os países daqui, apesar de não ter essa relação com o frio -
a não ser o Sul do Brasil, mas cujo é um frio suportável-, tem a questão da
pobreza e desigualdade. E isso também influencia no suicídio. Claro, pessoas
ricas ou milionárias podem ser alvo do suicídio, no entanto, a pobreza pesa
bastante nisto, sem dúvidas. E isso influencia aqui, no caso, dos países da
América Latina. No caso dos países nórdicos, especialmente na Suécia - que
acredito ser o berço do DSBM -, tem esse fator do frio, e também do crescimento
das cidades. Há ainda a questão dos jovens que se sentem perdidos. Na Suécia,
apesar de ser um país rico, com uma taxa alta de desenvolvimento, há uma
solidão entre os jovens. Também, não há muito isso de falar sobre o futuro.
Então os filhos têm que "se virar". E isso influi muito sobre os
adolescentes. Muitas bandas como Lifelover, Apati e Ofdrykkja falam disso em
suas letras. Sobre concreto bruto - a cidade com suas construções crescentes -
que tira a visão da natureza. E, também, sobre um sufocamento que recai sobre a
rotina de ter que estudar, trabalhar e sobreviver. Não há espaço para algum
lazer. Então acabam recorrendo às drogas, lícitas e/ou ilícitas, medicamentos...
e tudo isso reflete nas letras. Todas essas bandas, chamadas de "DepressiveRock/Narcotic Metal", trazem essa questão à tona. Ainda, sobre essa
questão de regionalização, o Japão é outro exemplo. Lá também tem muitas bandas
- algumas que nem mesmo usam o termo DSBM, mas abordam todos esses temas, já
que lá também tem um índice alto de suicídio. Um fator que pesa é este de ter
que ser o melhor, ter uma vida bem-sucedida, a qualquer custo. E, o
interessante, é que as bandas de cada país expõem aquilo que é mais pesado na
sociedade que a pessoa está inserida. No DSBM isso é muito evidente, expor o
que o indivíduo sente de acordo com a sua própria realidade.
Entrevistador 1: Podemos começar a falar do início do DSBM.
A primeira banda, de fato, foi Silencer ou Lifelover?
Lúgubre: Traçar o início de gêneros musicais é difícil; de
subgêneros é ainda mais. O que ocorre é que na década de 90 já existiam muitas
bandas que faziam uma sonoridade Black Metal, misturando com o Ambient, com o
Atmospheric, até com o Death Metal, como o caso do Malvery.
Mad: E muitas eram chamadas de Black Doom.
Lúgubre: Todas as bandas da década de 90 - eu costumo
rotular como "Proto-DSBM"-, embora não usassem o termo DSBM, todas já
abordavam os temas que vieram ser comuns no DSBM: O desejo pela morte, o
suicídio, os transtornos mentais. Bandas como Xasthur, fundada por Malefic e Malvery
- banda canadense onde o vocalista expôs tudo o que ele estava sentindo no
momento da gravação, e que veio a lançar um único álbum, e antes de chegar a
ver o lançamento deste álbum o vocalista cometeu suicídio - são exemplos. Então,
essas bandas da década de 90, Xasthur de 1995, Malvery de 1993 e Abyssic Hate
de 1993 já estavam moldando o que viria ser o Depressive Suicidal Black Metal.
O Silencer surgiu em 1995, mas, somente em 1998 Nattramn entrou na banda, e
então começou a compor e se expressar. O Silencer é citado como a primeira
banda porque, em 2001, lançaram o álbum que de fato mudou a cena naquele
momento. É uma banda do tipo que não existe meio termo: ou é boa ou não é;
quando alguém escuta pela primeira vez. Muitas pessoas, inclusive, gostam de
exaltar apenas o instrumental e criticar os vocais de Nattramn. Mas a banda é
uma dupla, e talvez não existiria a banda se não fosse a perfeita junção de
ambos os envolvidos.
Entrevistador 2: Foi o Nattramn que começou com o vocal mais
gritado?
Lúgubre: Com esse tipo de vocal, sim. Enquanto os vocalistas
tradicionais de Black Metal faziam um vocal agudo e mas odioso, ele dosava a
dor literal com o ódio, resultando num vocal desesperador. E ele não se importava
em como cantar, apenas deixava sair de forma espontânea. Foi uma forma que ele
optou por cantar e se expressar. Embora eles fizessem Black Metal, e nunca
tenham reivindicado o termo DSBM pra si, eles também não eram bem aceitos no
meio do Black Metal. Mas, haviam algumas pessoas que já estavam começando a
recebê-los e estavam se sentindo expressadas pela banda.
Lifelover surgiu em 2005, não foi a pioneira do DSBM, mas
foi uma das bandas importantes no subgênero. Jonas e Kim fundaram a banda e
dosaram vários elementos, como a levada Pós-punk e Black Metal, o que resultou
em um contraste interessante. Músicas dançantes, mas com letras falando de
temas mais pesados e tabus, com uma dose de sarcasmo e ironia.
Entrevistador 2: Então o Pós-punk influenciou o DSBM?
Lúgubre: Influenciou mais essas bandas que são chamadas de
"Depressive Rock/Narcotic Metal" como Lifelover. Anos depois, Apati,
e, quando Obehag morreu, Pessimistem formou a Ofdrykkja. E muitas outras foram
surgindo e seguindo nessa linha com influências do Pós-punk. Podemos dizer que
dentro do próprio DSBM tem algumas vertentes,
como essas bandas suecas que se focaram numa sonoridade até meio dançante, em
contraste com temas mais pesados. A sonoridade é menos "suja" também,
comparada com o DSBM das primeiras bandas que seguiam mais pro Black Metal. Essas,
da cena sueca, se focam mais em temas como a melancolia urbana, adicção de
álcool e outras substâncias, autoagressão e relacionamentos interpessoais.
Entrevistador 2: E o DSBM é algo bem íntimo, né? Algo mais
da pessoa mesmo.
Lúgubre: Sim, é algo bem pessoal. Claro, a partir do momento
que você expõe isso, como na internet, há a consequência de alguém escutar. Mas
o objetivo é expressar algo seu para você mesmo. Uma dor sua que você tenta
manifestar através da música; isso define o DSBM. Por isso é muito comum as
bandas serem de um só membro. Geralmente é uma pessoa solitária que tenta expor
suas emoções.
Mad: Por isso é até difícil de digerir o gênero e tornar ele
popular, pois é uma dor tão pessoal, algo tão íntimo que você não espera que
outra pessoa escute e entenda o que você queria passar, de uma forma tão
sincera. O DSBM é algo que você está fazendo mais pra você do que para os
outros. É a sua válvula de escape, é dizer o que você sente, sem se preocupar
com a opinião dos outros. Você faz por você, para o seu bem. Por isso, também,
é difícil de ter uma banda de DSBM com 1000 visualizações. Você faz com intuito
de só você escutar, ou nem mesmo você escutar depois. Você lança para dizer pra
si mesmo que expôs aquilo pra fora, e não para ficar famoso com aquilo. É uma
válvula de escape apenas.
Entrevistador 2: Tem pessoas que vêem o DSBM como
romantização da tristeza, do suicídio. Mas não é isso. É mais algo da pessoa
mesmo querendo se expressar sinceramente, né?!
Mad: Até porque não faz muito sentido, quem em sã
consciência se vangloriaria de ter depressão, de pensar em se matar? Não faz
sentido. A gente que está nesse meio se sente destruído por passar por essas
coisas, e não deseja isso a ninguém. Daí ver alguém de fora dizer que estamos
romantizando o suicídio é o que deixa a gente ainda mais triste.
Lúgubre: E as pessoas se baseiam isso em outros gêneros de
música. Por exemplo, há gêneros que falam da tristeza, mas é da tristeza em si,
não de coisas pesadas como é característico do DSBM. O DSBM vai a fundo,
falando de coisas que é até difícil colocar em palavras, e por isso se une a
vocais desesperados. É algo desesperador e que você não molda, não pensa em
como vai cantar, apenas sai de forma sincera ali no momento.
Entrevistador 2: Qual a banda pioneira de DSBM no Brasil?
Lúgubre: Pioneira cantando em inglês é Thy Light, mas eles
nunca se colocaram como DSBM. Desde o início já caminhavam com o Atmospheric
Black Metal. Já era um som mais fácil de digerir, e por isso teve um alcance
maior. Cantando em português existem muitas bandas que surgiram, e por isso não
tem como identificar apenas uma. Neblina Suicida, Lamúria Abissal e Funesto
estão entre essas primeiras.
Lúgubre: Essas bandas também eram distintas, cada uma
seguindo com suas próprias características dentro do DBSM.
Entrevistador 2: Tem bandas brasileiras que vêm chamando a
atenção de vocês, atualmente?
Mad: Frio Insólito, que lançou singles entre 2016 e 2017, e
agora em 2020 lançou seu primeiro EP. Abismika, que vem fazendo um trabalho excelente.
E Morte Rubra, onde o vocalista e letrista Alan, para mim, é o melhor que
surgiu nos últimos tempos dentro do Black Metal em geral.
Lúgubre: Nattag, que é de Ponta Grossa, Pr, que fez algo
interessante, uniu o Noise ao DSBM, algo meio experimental e ficou um som muito
bom. A Unguilty, que é de Curitiba, e tem uma sonoridade flertando muito com o
Doom, somando linhas de piano, passagens mais limpas e mais pesadas. Praticamente
todos os dias tem bandas novas surgindo, justamente para a pessoa poder se
expressar e, por consequência, também tem muitas pessoas que buscam por sons
assim para escutar. E quem escuta, muitas vezes, é influenciado a criar seu
próprio projeto também.
Mad: Rolou uma espécie de boom entre 2014 a 2016 por aqui.
Depois muitas bandas foram encerrando, algumas devido ao integrante cometer
suicídio. Então em 2019/2020 começou a renascer a cena e muitas bandas novas
foram se formando.
Entrevistador 2: Tem outro derivado desse subgênero, do
DSBM?
Lúgubre: Então, algumas bandas suecas se focaram mais na
melancolia urbana. Muitas tinham membros ainda adolescentes quando foram
formadas e, com isso, como não conseguiam se expressar de outra forma, eles colocavam
tudo na música. Essa linha é chamada de Depressive Rock/Narcotic Metal. Há
bandas que tem elementos mais atmosféricos como Woods Of Desolation, ColdWorld,
Austere, aqui no Brasil As Long As I Can (ALAIC), Entardecer e Rope, por
exemplo. Tem outras flertando mais com o Doom como as brasileiras HatefulAgony, Allonair e a Unguilty. E tem as bandas que já partiram para o Post Black
Metal, com um som mais limpo, com guitarras mais limpas e com distorções menos
pesadas como as brasileiras Gray Souvenirs, Help, Gulag, Depht. Essas últimas,
inclusive, surgiram no DSBM, mas com um som mais pro Post Black Metal - também
chamado de Blackgaze - no decorrer dos seus lançamentos. Isso ocorreu porque o
DSBM meio que abriu as portas para essa galera, já que o Blackgaze também é discriminado
dentro do Black Metal, por soar mais limpo, mais melancólico e menos pesado, e
também por ser algo novo no meio. O DSBM, à propósito, é um subgênero bem novo
ainda.
Mad: O Lúgubre e eu organizamos compilações com bandas
exclusivamente nacionais. Fazemos uma espécie de curadoria, e vamos atrás das
bandas.
Lúgubre: Eu gosto muito das bandas que cantam em português,
isso para qualquer gênero. Mas aqui há um grande preconceito com bandas que cantam
no nosso idioma nativo. No DSBM, eu aprecio muito isso porque é algo muito
difícil cantar no próprio idioma, falar de algo seu, tão pesado. Outras pessoas
daqui, que escutarem algo que você canta, vão compreender de imediato. E gera
uma certa vergonha, digamos assim, no sentido de ser algo tão pessoal seu, e
que outra pessoa pode vir a ouvir e até rapidamente te criticar, como
infelizmente ocorre, algumas vezes. Logo que conheci o Mad começamos a pensar
nisso de unir bandas em uma compilação, com a intenção única de dar suporte às
bandas, que talvez não teriam algum alcance sozinhas, justamente pelo pouco
alcance do DSBM em geral. Nessas compilações, bandas novas e as mais antigas da
cena se somaram. Tem muitas bandas boas no Brasil e nossa intenção é levar isso
às pessoas que curtem esse tipo de música, para não ficar aquilo de só escutar
bandas de outros países e ignorar o que temos aqui também e com boa qualidade.
Entrevistador 2: Tem uma curiosidade que é um Split do Happy
Days com o Deadspace, onde o A. Morbid canta em espanhol.
Lúgubre: Outra curiosidade é que há uma demo, do início, do
Happy Days onde o A. Morbid canta em norueguês. Ele fez isso como uma homenagem
às bandas que curtia, e eram da Noruega. E na época, também, ele estava aprendendo
esse idioma e quis testar em suas primeiras músicas. O interessante do espanhol
é que tem um alcance muito grande no DSBM. Talvez o público maior do DSBM
esteja em países onde a língua espanhola seja nativa. Basta olhar comentários
em vídeos e postagens e ver a quantidade de pessoas desses países comentando.
Há uma grande veneração, inclusive, à Nattramn, por esse pessoal do México e de
países aqui da América do Sul.
Mad: A cena latina é a mais ativa de todas. Tem muitas
bandas e o público consome bastante. Rola, com muita frequência, parcerias
entre essas bandas aqui da América Latina. É muito comum ver uma banda
mexicana, por exemplo, com algum integrante brasileiro.
Entrevistador 2: Eu não tinha essa ideia. Acreditava que
eram mais países nórdicos que tinham um maior alcance.
Lúgubre: Isso é um ponto interessante. Porque muitas pessoas
não enxergam isso que ocorre aqui mesmo, e por isso a ideia da compilação.
Acaba sendo uma forma da cena conhecer mais essas bandas e valorizar, além do
fato das que cantam em português você conseguir compreender o que está sendo
cantado naquele momento; é algo mais familiar e direto. Isso também é muito
gratificante para nós. Receber mensagens nas páginas de alguém dizendo
"olha, essa é minha banda, meu projeto e tal", isso é o que nos
mantêm seguindo cooperando, de alguma forma. É uma troca. Damos suporte às
bandas e elas nos presenteiam com sua arte, que tanto apreciamos. E o DSBM é
algo que nos faz seguir sobrevivendo pelos dias também, já que nos
identificamos com o que é expressado, e que é tanto negligenciado pela
sociedade.
Mad: Ultimamente tem sido mais raro vermos as bandas fazendo
Split. Então isso das compilações é algo que junta as bandas também. Já
soubemos de membros que se conheceram devido a elas e criaram outras bandas e
projetos. Então é gratificante isso.
Entrevistador 2: E
sobre esse papo desanimador de dizer que a cena está acabando, ou que não tem
mais nada de bom?
Mad: É o mesmo papo de dizer que o Rock já morreu. É
realmente desanimador.
Lúgubre: Eu vejo isso como comodismo da galera. É fácil você
pegar uma banda do passado, como Black Sabbath ou Metallica, e dizer que não há
nada de inovador e bom hoje como era naquela época. Há milhares de bandas
surgindo a todo instante e fazendo um som muito bom. Independente do gênero ou
subgênero. Mas o comodismo da galera é alto, e preferem fingir que não há nada
que presta hoje. Se prendem ao passado para não conhecer algo novo. A cena do
Rock e Metal está cheia disso, e acaba até desestimulando outras pessoas no
meio, mantendo um ciclo de achar que não há nada de bom nos dias atuais.
Mad: É até uma preguiça de pesquisar. Essa galera não vai
atrás e por isso diz que a cena morreu, ou "se não chegou até mim, então
não existe". Nós, com a página, tentamos sempre dar foco às bandas novas.
Focar nelas. Porque não faz muito sentido você divulgar o que todos no meio já
conhecem.
Entrevistador 1: Finalizamos a entrevista com indicações de
bandas. Lúgubre, o que você indica?
Lúgubre: Indico a banda Alivium, banda brasileira com vocais
femininos. E quero dizer que acho muito importante a presença feminina no
Metal, e no DSBM não poderia ser diferente! Por enquanto essa banda tem apenas
uma música, chamada Vazio, mas em breve a banda lançará um álbum. A vocalista
usa o pseudônimo de Das Irrlicht.
Entrevistador 1: Muito bom! Meu querido Lúgubre vem aí para
mostrar que nem todo sulista é pau no cu. E você, Mad, o que indica?
Enquanto o verão tenta soprar sua brisa ardente através do
clima frio e chuvoso do leste do Paraná, eu busco por melodias que possam
trazer um alívio gélido, ainda assim quente o suficiente para me lembrar que a
existência humana consiste de algum equilíbrio entre os opostos. Sim, estou
falando de Unguilty, banda de Depressive Doom Metal oriunda da capital mais
fria do país: Curitiba. Tão fria quanto a cidade, são as melodias executadas
por F. R. - Felipe Ravanello -, o único integrante da banda. Mas, engana-se
quem pensa que o fato de ser um só membro faz desta banda algo limitado. Ela expande-se
para além dos horizontes. Com seu talento nato, Felipe põe na balança
cadenciados riffs de guitarras, linhas melancólicas de piano, baixo nítido e
envolvente do início ao fim e bateria marcando uniformemente cada passo
melódico das faixas. Seus vocais graves fecham a obra, criando uma atmosfera
soturna, densa e imersiva. Ainda, há passagens com vocais limpos, onde cada
palavra proferida ressoa majestosamente, completando, assim, as imagens
lamentosas criadas em Gray, o 3º álbum de Unguilty. A parte lírica de Gray
ficou por conta de Melissa Winter, que belissimamente expressa uma gama de
emoções a cada linha. Uma poesia desesperada, agonizante, em desabafos de
alguém que busca ferozmente pela luz. De alguém que foi tomado pela escuridão,
cegando tudo à sua frente. A produção, gravação e lançamento do álbum fica à cargo do selo Eternal Awake Records. Embora não seja um álbum conceitual - de um modo e outro
as faixas se relacionam umas com as outras -, seria um sacrilégio não
fazer uma parada por cada uma delas. Então, embarque comigo para essa viagem
pelas trilhas da desolação.
1. Asleep With The Midnight Sun - Com um suave riff de
guitarra entrelaçado com sons de água corrente, que cativa de imediato, a faixa
vai crescendo de forma precisa a cada segundo. Acordes suaves, mas, já
expressando uma melancolia que prepara para o peso que chega em seguida. Os
riffs distorcidos são muito bem encaixados, contrastando com os vocais
vigorosos e que exalam o distanciamento da alegria. A letra remete a perdas,
abandono, distanciamento. Quando tudo aquilo que trazia uma chama de vida se
apaga, o que podemos fazer? Apenas se lembrar. Mas, as boas lembranças podem
ser mais dolorosas que apaziguadoras. E a dor segue corroendo internamente. F.
R. consegue trazer as emoções à tona de uma forma muito palpável, ainda,
mantendo esmera sintonia com cada instrumento que executa. Assim como as demais
faixas, ela ultrapassa os 5 minutos, mas é dosada para que não se torne
monótona, pelo contrário, há partes mais rápidas que se encontram com as mais
calmas e melancólicas, alicerçadas com uma linha de piano que agrega muito mais
tristura ao panorama já densamente triste.
2. The Abyss And The Pendulum - A lentidão sonora,
característica da banda, traz uma imersão muito maior ao ser evocada logo nos
primeiros instantes desta faixa. O sintetizador cria uma imagem lutuosa impossível
de se desvencilhar. A bateria acelera o ritmo, mas ainda é lenta o suficiente
para que o ar fúnebre permaneça. E, é justamente o que a parte lírica expõe.
Quando você não consegue enxergar nada mais a sua frente, quando a escuridão
põe uma venda diante de ti, então, para onde ir? A única alternativa, já
plantada e regada no decorrer do tempo, se torna um arvoredo em sua mente.
Perante o abismo, o corpo, deliberadamente, cai. Não é preciso, sequer, dar o
impulso. O cansaço, penetrando dia após dia até os ossos, é suficiente para que
o corpo apenas busque seu fim por si só. A mente cessa. Não há porquê resistir.
A resignação se assenta para que não haja mais luta alguma, afinal, não há mais
físico e mental aptos para qualquer luta que seja. O não existir paira pela
eternidade.
3. Coexistence - A canção que traz uma calma, após as duas
primeiras mais densas, não deixa de ser tristemente bela e profunda. Com vocais
limpos, F. R. recita a dor da partida. Nesse ponto, não é mais a dor de quem
partiu, mas sim de quem ficou. O pesar que parece nunca vir a se tornar
saudade. Perder alguém é uma dor infindável, que, talvez, seja transformada -
externamente - em saudade, em algum momento da vida, mas, a dor em si, esta
ainda tem seu assento dentro de cada um de nós. O instrumental é imensamente
marcante, com riffs de guitarra que emergem conduzindo a música e levando-a
cada vez mais ao lago emocional onde a tristeza preenche incansavelmente. Mesmo
nas partes mais rápidas, os riffs seguem acentuados. A saída da velocidade para
a sonoridade mais lenta se faz com primor, não há quebra sonora, o que torna a
faixa integral com todas suas partes singulares.
4. Gray - O piano, que é o instrumental característico em
sonoridades do Depressive Doom, se faz presente aqui logo no início. Com uma
bateria cadenciada, ele ressoa lastimavelmente enquanto os vocais limpos são
proferidos. As linhas de guitarra, como de praxe, são a guia da desolação. O
baixo, aliás, instrumento de maior familiaridade de F. R. (custei a usar esse termo,
visto que o músico é multi-instrumentista nato) tem sua marca notavelmente
acurada, não só nesta, mas em todas as faixas. A música-título do álbum fala
sobre o não-sentir. Quando o indivíduo se encontra morto, em emoções, sentidos e sensações. A paisagem
é sempre acinzentada, não há vida, cores, nitidez. As vistas se ofuscam junto à
natureza funesta que rodeia a tudo. Estar morto, mas, ainda assim, não estar. A
consciência de si, este é o inferno real.
5. Hill House - Seguindo Gray, esta faixa também traz uma
suave introdução com piano, acordes limpos de guitarra e vocais imersivos e
limpos se abrindo às lembranças, anseios e saudade. A saudade, que outrora
sobrecarregava como luto, aqui se faz corpórea. O desejo de poder aliviar as
dores de quem estimamos, de reviver o que tivemos, os momentos, os afetos
compartilhados, os silêncios. A música segue mais marcante, em sua lentidão
expressiva, penetrante, com a bateria agregando o peso exato para chegar ao
fundo das emoções mais secretas de nosso âmago. A ambientação, inclusive, é imprescindível
para isto. O ar enevoado, abraçando em todas as direções, parece nos levar a um
vendaval. Não um vendaval hostil, mas sim aquele preciso, na exata turbulência
para que cada partícula do som se mescle ao nosso próprio corpo e mente, talvez,
no alto da colina de nossos sonhos soterrados.
6. Rest - Após dores, angústias e pesares, o descanso chega.
Esta faixa é toda instrumental, mas, o fato de não ter canto não torna ela
inexpressiva. Ela fala, ela ressoa liricamente, ela transmite muitas mensagens,
sem nada dizer. Guitarras, baixo, bateria e piano fazem Rest bradar pela
vontade de repousar, respirar, encontrar um resquício de serenidade. Do início
ao fim, ela consegue colocar isto de forma tangível.
7. I - The Garden Of My Suicide - Embora, à princípio, não
seja um álbum conceitual, aqui inicia-se o primeiro capítulo de 3 canções que,
por que não dizer, resultam em uma epopeia. Desde a primeira faixa até aqui, as
emoções mais obscuras foram trazidas à tona. Não é diferente agora, no entanto,
elas estão ainda mais afundadas no desamparo de uma alma que chegou ao seu
final, o final por suas próprias mãos. Além da visão enegrecida no nada, as
dúvidas de o porquê daquilo, pairam, remoem, disparam sem cessar. A tormenta
aumenta, toma proporções inconcebíveis. F. R., com sua voz vigorosa, expressa
esse trajeto em meio à desolação de forma esplêndida. As passagens mais calmas
não deixam de ter um peso, uma densidade, uma carga suficiente para que a desolação
deixe de aflorar. Do mesmo modo que as anteriores, ela tem uma dosagem exata
para que se desenvolva uniformemente sem que se torne uma viagem sonora
entediante. Suas variações são, aliás, o que mantém a história, ali contada,
tão convidativa.
8. II - After My Suicide (The Lost Land) - Juntamente com a
faixa anterior, esta ultrapassa os 11 minutos de duração. É a segunda parte da
epopeia, onde o herói chega ao seu regozijo. Após tantas perdas e angústias,
parece haver um contentamento, uma sensação de tranquilidade. Nada mais dói.
Nada mais é laborioso. Há luz, há cores, há sons agradáveis vindo de todas as
direções. Há, enfim, alívio. O piano, marcante, dá continuidade na caminhada
rumo à terra da pós-existência. Os riffs de guitarra trafegam com intensidade
pelas vielas do, ainda, desconhecido. A bateria e o baixo manifestam
entrosamento ideal com o que a canção transmite. Aos sete minutos e meio da faixa,
a suavidade se assenta belissimamente, refletindo a serenidade alcançada por
quem passou a vida toda almejando nada mais que a paz interior. A guitarra dá a
melancolia necessária para gerar uma gama de sensações. O piano parece falar
com alegria, anunciando o remanso, enfim, encontrado.
9. III - New Meaning - E, em sua quietude, o despertar. Quando
se chega ao fim de tudo, há - independentemente das crenças e fés - um
renascer. E, aquele que sofreu severamente em vida, pôde, finalmente, olhar
para si mesmo. Essa percepção profunda o fez compreender que a morte nada mais
é que o cessar de seu eu. O eu imerso em angústia, desespero e dor. Ao matar a
si, matou tudo que o atormentava. Agora, sob seu olhar límpido, consegue
enxergar o que existe, de verdade, por debaixo de toda dor e sofrimento. Um
novo eu, o autêntico, o único, que foi massacrado, soterrado e limitado pela
agonia de existir, meramente existir, ao invés de viver, de fato. Não mais será
assim, porque jaz aquele e renasce este, em um novo significado.
Assim como em seus álbuns anteriores, Unguilty ingressa Gray
em temas existenciais, profundos, que assombram aqueles que tiveram seus olhos
marejados pela escuridão. No entanto, ele é um álbum com passagem de ida, mas,
também, de uma volta. Não ao momento em que se estava, mas a um novo momento.
De forma incrível, Gray traz a dor e também o alívio. A fadiga e o descanso. O
nada e o tudo. E, principalmente, o fim e o início, exatamente nesta ordem.
Black Metal: Evolution of the Cult é um livro escrito por
Dayal Patterson e lançado em 2013. Patterson contribuiu com vasto material para
as revistas Decibel, Terrorizer e Metal Hammer, tendo também publicado outros
2 livros, Black Metal: The Cult Never
Dies Vol. 1 e Black Metal: Into the Abyss. Sendo um grande conhecedor do Metal
Extremo, traz uma verdadeira enciclopédia em seus livros, dando foco especial
no Black Metal. O livro Black Metal: Evolution of the Cult apresenta mais de
uma centena de novas e exclusivas entrevistas com as figuras mais centrais do
gênero. É o guia mais completo até agora para esta forma fascinante e
controversa de Metal Extremo.
A tradução a seguir se concentra no capítulo 49, onde Patterson
traz a banda sueca Lifelover, que, embora tenha uma gama de influências e mix
de sonoridades, tem sua base também no Black Metal, sendo uma das
representantes do Depressive Black Metal, ou como se intitularam (sarcasticamente)
Narcotic Metal.
Dada à miríade de estilos do Black Metal explorado nos anos
noventa, talvez fosse inevitável que as bandas que se seguiram dessem um passo
adiante e tomassem os elementos centrais como base, ao mesmo tempo em que se
mudavam para gêneros inteiramente novos. Se os anos anteriores tinham visto
artistas indo o mais longe que podiam do som central do Black Metal enquanto se
apegavam firmemente ao ethos satânico/oculto/misantrópico, agora as bandas
repensariam até mesmo isso, pegando elementos da forma do Black Metal, mas
reconstruindo-os em uma direção emocional, ideológica ou espiritual
inteiramente nova. Em certo sentido, é menos uma mudança de forma do que de
contexto. Um exemplo antigo é o Neonism de Solefald em contraste com La
Masquerade Infernale de Arcturus; enquanto ambos se afastavam consideravelmente
da música Black Metal convencional, foi Solefald quem deu um salto mais óbvio
em termos de tema e estética.
Em meados dos anos 2000, esse fenômeno estava surgindo com
crescente regularidade, sendo o Lifelover, da Suécia, um desses atos
fascinantes. Expelidos à existência em 2005, seu relacionamento conflitante com
a cena Black Metal os localizou confortavelmente dentro do rótulo “Post-Black Metal”.
Como Solefald e Shining, eles carregavam um tom urbano pesado, e onde outras
bandas Post-Black como Amesoeurs, Alcest e Fen tendiam a se inclinar para o
romântico, pastoral e edificante, apesar de um senso inerente de melancolia, a
abordagem do Lifelover era tão cínica como seu nome, sua perspectiva
implacavelmente sombria, urbana e fragmentada. Com elementos de Pop, Shoegaze,
Depressive Rock e New wave, seu som era em muitos aspectos gloriosamente
contraditório, mas os elementos de Black Metal que nadavam nessa estranha
mistura são muito menos surpreendentes quando se considera a herança musical
dos fundadores da banda.
Iniciada como um duo, a banda era originalmente composta por
“B” (nascido Jonas Bergqvist, e também conhecido como Natdall, das bandas
ortodoxas de Black Metal Ondskapt, Dimhymn e IXXI) e o ainda mais desajeitado
“( )”, também conhecido como Kim Carlsson, das bandas de Depressive Black Metal
Hypothermia, Kyla e Life is Pain. Falando com B, em 2010, – que infelizmente
faleceu no ano seguinte – rapidamente ficou claro que o início do Lifelover era
tão caótico quanto sua música, nascida do desespero e ações destrutivas.
“A Lifelover foi formada em uma manhã de junho de 2005”,
explicou. “Eu e ( ) estávamos acordados há muito tempo, bebendo e nos cortando,
e toda a casa em que estávamos estava cheia de vômito e sangue. ( ) havia feito
alguns vocais adicionais para minha banda de Black Metal Dimhymn para a
gravação do [segundo álbum] Djävulens Tid Är Kommen. Por alguma razão, no dia
seguinte ao ‘massacre de sangue’ – a primeira vez que nos encontramos –
decidimos sentar e tocar guitarra juntos e apenas improvisar com muito delay.
Achamos que soava legal, demente e urbano, então gravamos a demo Promo 2005 ali
mesmo. Em relação ao nome da banda, uma vez, em 2004, fui chamado de
'Lifelover', em um e-mail por idiota que nem me conhecia, e ele enviou o mesmo
e-mail para muitas pessoas e gravadoras. Então nós dois pensamos que poderia
ser uma coisa divertida chamar a gravação de Lifelover.”
“Quando eu e B nos encontramos pela primeira vez, fomos dar
uma volta na zona rural para gravar algumas músicas”, relembrou ( ) sobre o
começo da banda, em entrevista por telefone que fiz para a Metal Hammer em
2011. “A primeira coisa que aconteceu foi que nos cortamos. Depois demos um
passeio na floresta até ficarmos vazios – você provavelmente pode imaginar, a
combinação de perda de sangue e consumo de álcool faz você entrar em uma
atmosfera um pouco diferente. Começamos a fazer música e começamos a
transformar a casa em que estávamos em algo parecido com um matadouro, as
paredes totalmente cobertas de sangue, cada móvel, cada instrumento, tudo. No
final, havia mais sangue do que qualquer outra coisa e estávamos atordoados,
mas simplesmente sentimos que tínhamos que fazer algo, então começamos a tocar
guitarra juntos e foi quando gravamos as duas primeiras músicas que se tornaram
Lifelover.”
Extenso e improvisado, a promo da banda não seria um reflexo
da direção que a banda estava tomando, e não foi até o ano seguinte que a dupla
começou a escrever novas músicas, ao fazê-lo, forjando o som único pelo qual
são conhecidos agora. Expandindo para seis partes, o grupo agora viu B
manuseando a guitarra, vocais, fala e piano, ( ) responsável pelos vocais
principais, H. (“Henrik”) na guitarra base, Fix (“Felix”) no baixo e 1853
(Johan Gabrielson) e LR (Rickard Öström) também contribuíram com os vocais.
Juntos, o grupo trabalhou para criar seu álbum de estreia, lançado em 2006 como
Pulver, sueco para “pó”. Com material escrito em grande parte de forma
individual, a composição foi dominada por B, com ( ), LR e 1853 também
contribuindo.
“O novo som realmente começou quando eu e ( ) gravamos as
músicas do [Pulver] ‘Nackskott’ e ‘Stockholm’ juntos”, explicou B. “Nós dois
sentimos uma grande satisfação com essas músicas e, quando continuei a
escrever, segui essa direção, mas também encontrei novas direções ao mesmo
tempo, então o processo de escrever Pulver foi muito emocionante, e uma nova
maneira de escrever música para mim. Gravamos as músicas durante um período de
dois meses e, como você pode ouvir, não nos esforçamos muito para torná-lo um
registro perfeito em relação à produção. Foi gravado durante o abuso de álcool
e drogas... ( ) gravou os vocais deitado no chão sangrando. Foram dois meses
estranhos/doentes.”
Estranho e doentio de fato: construído de uma maneira muitas
vezes chocante de recortar e colar vagamente semelhante ao do japonês Sigh, as
músicas de Pulver dependiam de justaposição idiossincrática, com passagens de
energia estranhamente altas e ritmos quase ska ao lado de seções sombrias e
torturantes, a bateria programada complementada por uma série de amostras
muitas vezes desconcertantes. A combinação resultante provou ser tão
impressionante e incomum quanto as fotografias do nu encharcado de sangue adornando a arte da capa, combinando a experiência Black Metal do membro
fundador com uma clara influência de nomes como Joy Division e até The Cure.
“Dinâmica é tudo na música”, considerou ( ). “Para nós é
muito fácil escrever algo lento, frio e sombrio, mas queremos um desafio quando
escrevemos música, e é mais interessante escrever algo diferente. Não tenho
ideia se soa feliz, estranho, louco ou fodido para as pessoas ouvirem –
contanto que o resultado final do álbum seja bom, estou satisfeito. [As]
amostras que escolhemos principalmente de programas de TV suecos e filmes
antigos, são coisas que nós assistíamos enquanto crescíamos. Eu realmente não
me lembro como a ideia surgiu, mas descobrimos que fazia tudo parecer mais
demente e doentio. Nunca revelamos exatamente de onde vem cada amostra,
queremos que as pessoas se perguntem e tentem descobrir por si mesmas, e
revelar esses detalhes destrói parte do sentimento místico que elas criam.”
“Em relação a [influências], há muitas bandas que me deram
essa fagulha”, continuou ele, “mas é muito difícil nomear algumas delas, não
sei qual escolher, pois sempre escutei tantos gêneros diferentes. Eu não nos
chamaria de Black Metal, mas é claro que eu e ( ) viemos de uma vivência Black
Metal, então não é estranho que tenhamos elementos de Black Metal em nosso
som.”
Aproveitando ao máximo uma química interna na banda
altamente produtiva, Lifelover rapidamente deu seguimento a Pulver com um
excelente álbum intitulado Erotik, lançado em 2007. Apesar de ainda soar como
se tudo pudesse desmoronar a qualquer momento, Erotik foi, no entanto, um álbum
notavelmente mais arredondado e completo, mantendo o som fragmentado e
pulsante, mas atingindo profundamente com composições mais emotivas e até
angustiantes. Mais uma vez, as músicas foram escritas em grande parte
separadamente, com ( ) não mais envolvido ativamente e o vocalista adicional LR
aparentemente preenchendo esse vazio.
“Com o Erotik, de alguma forma, queríamos refletir a vida e
os ambientes urbanos de Estocolmo”, explica B. “Definitivamente queríamos fazer
algo diferente do Pulver, mas ainda temos um pouco desse elemento. Queríamos
que tivesse uma sensação ‘narcótica’ também, e liberasse toda a loucura dentro
de nós. O som ficou muito mais escuro de várias maneiras.”
Tematicamente, o álbum provou ser quase dolorosamente
honesto, dando uma visão do coração da besta com uma abundância de imagens de
recortes urbanos sombrios e músicas em inglês - muitas vezes com vocais limpos
- pintando um quadro de depressão e abuso de substâncias.
“É bem simples; as letras refletem nossas vidas e nossas
vidas consistem principalmente em uma grande quantidade de agonia e angústia”,
admite B. “E para reduzir nossa angústia tomamos as drogas necessárias. E é
principalmente isso, mas também tocamos em assuntos como amor – ou amor
ferido/perdido para ser exato – ódio pela humanidade e pensamentos suicidas.
Também escrevemos sobre o entorno urbano e a vida miserável da cidade. Não são
letras exatamente positivas, mas elas provavelmente são mais honestas do que a
maioria das bandas por aí. Lifelover me reflete totalmente como pessoa; quando
você ouve todas as músicas que fizemos e lê todas as letras, você conhece um pouco
de mim, em certo sentido, você pode me conhecer dessa maneira. Eu acho que é o
mesmo com os outros caras, até certo ponto.”
Nesse sentido, Lifelover refletia um personagem quase
esquizofrênico, com passagens otimistas e aparentemente alegres ao lado de
momentos de miséria desprezível. São essas partes “felizes” que parecem mais
fora de lugar dentro de um contexto de Black Metal, mas ao contrário de, por
exemplo, Alcest, mesmo as passagens mais alegres tendem a pingar com uma
atmosfera hiperativa e maníaca, alimentada por Prozac.
“Você não pode dizer honestamente que a vida é apenas
miséria o tempo todo”, explicou B sobre a escolha de incluir essas emoções
(aparentemente) positivas na música. “Para algumas pessoas, pode ser, mas
refletimos todos os sentimentos em nossas vidas – mesmo que eu me sinta
principalmente uma merda, minha vida também tem seus momentos brilhantes. E
acho que esse é o caso de a maioria das pessoas se sentirem para baixo.”
“Nós nunca gravamos nada sóbrio, nem tocamos sóbrios ao vivo
por causa disso, e eu escrevi quase todas as músicas e letras de Lifelover
enquanto estava tomando diferentes opioides ou benzodiazepínicos. Assim, sou um
viciado - eles me dão inspiração - é trágico, mas o que fazer? Pessoalmente,
tomo benzodiazepínicos (principalmente Clonazepam e Diazepam) diariamente para
sobreviver à minha grave agonia e costumava tomar opioides diariamente também,
mas estou farto de tomá-los diariamente. Sou diagnosticado com Transtorno de
Ansiedade Generalizada e tomo vários medicamentos diferentes. Além disso,
também uso drogas como anfetaminas, cannabis e opioides de vez em quando... mas
faço isso apenas para poder fazer qualquer coisa. Caso contrário, eu estaria
deitado na cama o dia todo, me sentindo uma merda. Acho que minha vida não se
encaixa na imagem da vida do cara comum, mas vivo o mais ‘feliz’ possível e
crio música.”
“Eu sei que o outro guitarrista, H., e nosso baixista Fix
estão usando cocaína de vez em quando, eles também estão fumando maconha
diariamente, assim como 1853, LR e o baterista Non. Ele também está preso a
benzodiazepínicos agora. ( ) também está fumando às vezes, mas ele é meio
especialista em cerveja, então eu acho que álcool é o tipo de droga dele, mas
eu sei que ele gosta de pílulas e outras coisas também, todos os membros
gostam. Tudo é um espelho de nossas vidas.”
Foi um ponto que ( ) confirmou comigo durante nossa
entrevista ao Metal Hammer em 2011. “Não consigo me lembrar de nenhuma música
que tenhamos gravado sem estar sob influência”, admite ( ). “Geralmente estou
bêbado, chapado, de ressaca ou todas as opções acima quando gravo meus vocais e
a maioria dos outros tem suas prescrições. B também, ele faz a maior parte da
música sentado em sua "pira" com sua guitarra. Nenhum de nós tem uma
vida fácil, atualmente dois de nós são sem-teto e temos muitas pessoas
próximas a nós em situações ruins, pessoas em hospitais, pessoas se matando,
pessoas tentando se matar. É difícil conseguir trabalho aqui, é difícil
conseguir moradia. Tenho certeza de que há problemas semelhantes em seu país,
mas pessoas de diferentes países lidam com as coisas de maneiras diferentes.”
Os temas gerais de autodestruição foram complementados em um
sentido mais literal pela extrema automutilação de ( ), cujo corpo extensamente
cicatrizado é evidente na arte da capa e nas fotos promocionais. “Acho que não
escrevemos nenhuma letra que refletisse diretamente a automutilação em relação
ao corte”, explicou B. “Mas é claro que a maioria das letras é bastante
autodestrutiva de uma maneira subliminar. E o que é realmente automutilação? O
uso diário de drogas não é bastante autodestrutivo? Mas para o corte, sim, é
apenas ( ) quem incentiva isso. Acho que cada um em Lifelover, em algum momento
de suas vidas, se cortaram, exceto no caso de ( ) que está em uma posição
diferente de nós agora.”
O terceiro álbum da banda, Konkurs (sueco para “falência” ou
“insolvência”), foi lançado em 2008, desta vez pela Avantgarde Records. Agora
escrito e gravado como um quinteto sem as contribuições de LR, o álbum foi para
um som mais fluido, com tristeza substituindo a agitação do antecessor em
grande medida. Isso refletiu o longo tempo gasto escrevendo e gravando o disco,
e o objetivo de fazer um álbum mais sombrio, depressivo e profissional “sem
partes felizes”, cita B. Mais uma vez, títulos de músicas traduzidos apoiam
essa afirmação, alguns exemplos de escolha sendo “Tempo de Câncer”, “Minha Ala Hospitalar” e “O Prego no Caixão”.
2009 foi o primeiro ano sem um álbum para a banda por três
anos, mas foi notável mesmo assim com o mini-álbum Dekadens lançado pela Osmose
Records, que também começou a relançar os dois primeiros álbuns da banda,
refletindo a crescente base de fãs. Um esforço inegavelmente forte, Dekadens
foi dominado pela escrita de B e provou ser o esforço mais orgânico da banda,
apresentando o baterista ao vivo Non (“Andreas”). Tendo apresentado um
baterista anterior chamado "S" em shows ao vivo, o material gravado
da banda agora foi sustentado por percussão ao vivo pela primeira vez, um movimento
que impactou fortemente o tom do grupo.
A adição seria de curta duração, no entanto, e o álbum final
da banda, Sjukdom de quatorze faixas (que significa "doença",
"enfermidade" ou "moléstia"), lançado em 2011, viu um
retorno à percussão programada. Um lançamento um tanto divisivo, que polarizou
os críticos graças à sua natureza muitas vezes implacável e impenetrável,
principalmente no início do disco. Agora com um grupo reduzido a ( ), B, LR e
1853, também teve participações especiais dos black metaleiros Gok e P.G. da
Ancient Death. Mais uma vez B escreveu a maior parte das músicas, embora as
letras tenham sido contribuídas por todos os membros envolvidos. A parafernália
que acompanhou a versão de edição limitada do álbum (incluindo uma seringa e uma navalha) provou que a banda não se desviou muito tematicamente, mais uma
vez transmitindo uma imagem sombria e urbana de depressão, alienação e
dependência de drogas.
O álbum seria o último da banda, pois em 9 de setembro de
2011, Jonas “B” Bergqvist infelizmente faleceu. Os membros restantes da banda
logo confirmaram os rumores de sua morte com uma declaração que explicava: “Na
manhã de sexta-feira, 9 de setembro, B não acordou de seu sono. Ele não tirou a
própria vida nem foi vítima de qualquer ação aparente. As autoridades
responsáveis ainda estão examinando seu corpo para encontrar a causa exata da
morte... Nós, os membros restantes do Lifelover, decidimos colocar a banda para
dormir permanentemente. Esta seria a única coisa certa a fazer, considerando que
B era o principal compositor de Lifelover.”
Dada a tapeçaria sombria na qual a banda se baseou, bem como
o estilo de vida autodestrutivo de seus membros, uma morte dentro do grupo
talvez não fosse totalmente surpreendente. Mas, ao que parece, a morte de B não
foi auto infligida ou resultado de qualquer substância ilegal. Na verdade,
tragicamente, parece ter se originado da medicação prescrita para o próprio
Transtorno de Ansiedade que ele havia discutido em nossa entrevista. Uma
declaração da família explicava que a autópsia havia mostrado um envenenamento
e overdose desconhecidos e que B tomava benzodiazepínicos desde os dezoito
anos, aumentando a medicação à medida que seu corpo se acostumava a cada dose.
A vida de B foi claramente conturbada, mas talvez valha a
pena lembrar que uma surpreendente positividade surgiu tanto na música de
Lifelover quanto nas próprias palavras e comunicações de B (ele foi um dos mais
entusiasmados dos envolvidos com este livro, por exemplo), com as muitas
conquistas (cinco lançamentos essenciais em tantos anos, mais do que a maioria
das bandas alcança em décadas de existência) proporcionando uma satisfação
óbvia.
“Nossa base de fãs é muito diversificada”, ponderou. “Nós
vemos tantos fãs de Black Metal quanto fãs 'normais' de Rock/Pop... bem, você
escolhe, nós vemos todos eles e isso é um grande prazer para nós. Eu vejo isso
como um sinal de que nossa música é tão complexa que atrai tantas pessoas
diferentes. Mas sim, nós temos muitos fãs de Black Metal, e isso às vezes
parece estranho, mas ei, para ser honesto, eu não me importo com quem nos ouve
– contanto que nossa música deprave o máximo possível, estamos satisfeitos. ”
Sempre mais do que feliz em polarizar, Lifelover conquistou
uma base de fãs impressionante, incluindo fãs e críticos da cena Black Metal.
Seu legado é um corpo de trabalho que exibe uma ampla gama emocional rara no
metal extremo. “Existem muitos [críticos] por aí”, concluiu B, “mas na maioria
das vezes eu apenas rio contra seus ataques ignorantes na internet. Mas também
queremos ofender as pessoas, não apenas “encantá-las”. Nós nos tornamos aquela
banda que as pessoas amam ou odeiam, e eu pessoalmente acho isso ótimo. Se
olharmos um pouco para trás na história da música, são essas bandas que se
tornaram grandes e famosas. Mas nosso objetivo é se tornar infames*!”
Missão cumprida, sem dúvida. Descanse em paz B, e descanse
em paz Lifelover.
NT: *Infamous - se traduz como infames, no entanto, B fez um
trocadilho sugerindo tanto se tornarem "não-famosos" quanto
"desprezíveis".