Há projetos que fazem da música apenas uma forma de expressão. Outros parecem encontrar nela um lugar para existir. Unguilty pertence a essa segunda categoria.
Criado em Curitiba por F.R., o projeto constrói sua identidade a partir do encontro entre Black Metal, Doom Metal e a atmosfera introspectiva do DSBM. Ao longo de três álbuns, uma demo e um EP, sua música percorre paisagens marcadas pela melancolia, pela nostalgia, pelas inquietações humanas e por aquela tristeza silenciosa que nem sempre precisa ser combatida; às vezes, apenas reconhecida.
Por trás dessa sonoridade está também um processo essencialmente independente: F. R. compõe, toca e grava o material em seu próprio estúdio doméstico, transformando limitações técnicas em parte de uma identidade sonora cuidadosamente construída.
Com um novo álbum se aproximando e três singles já apresentados ao público, este é um momento particularmente interessante para olhar para a trajetória do projeto e entender o que existe por trás dessas paisagens sonoras.
Nesta entrevista, F.R. fala sobre suas influências, o nascimento de Unguilty, o processo de composição e produção, a relação entre peso e melancolia e, principalmente, sobre o novo capítulo que está prestes a ser escrito.
Para começarmos pelo princípio: quem é F. R. para além do Unguilty? De onde surgiu seu interesse pela música e, especialmente, pelo Black Metal e por suas vertentes mais sombrias?
F.R.: Quando criança, me lembro de voltar do colégio e minha mãe estar varrendo a casa enquanto ouvia Linkin Park. Essa foi minha primeira influência musical e que, ao longo dos anos, foi evoluindo e mudando. Assim, a música assumiu cada vez mais um papel central em minha vida. Hoje, embora eu leve uma vida bastante tradicional de qualquer CLT brasileiro, ainda tenho essa paixão como algo essencial e o Unguilty tornou-se minha forma de viver isso.
Quais artistas e bandas foram fundamentais para a sua formação musical? Existe algum disco que você considera ter mudado sua maneira de enxergar ou sentir a música?
F.R.: Iron Maiden é, sem dúvidas, a banda mais importante para minha trajetória como músico. Foi com o intuito de aprender a tocar "Infinite Dreams" que comecei a aprender música, tocando o baixo. Mais tarde, o álbum "The Mantle" do Agalloch foi o que me direcionou em definitivo para os estilos mais extremos do metal e que viriam a ser uma grande influência ao Unguilty.
Unguilty já possui uma identidade bastante reconhecível dentro da cena. Quando você percebeu que havia encontrado uma sonoridade que realmente representava aquilo que queria expressar?
F.R.: Iniciei o Unguilty quando ainda tinha pouca experiência com a música, tanto em termos de composição e técnica como de produção musical. Por isso, desde o início, o projeto foi algo que se desenvolveu muito organicamente, ao passo em que eu mesmo me aperfeiçoava como músico. E, assim, aos poucos, essa identidade foi surgindo e se consolidando à cada nova composição.
Você transita principalmente entre Black Metal, Doom Metal e elementos do DSBM. O que essas vertentes oferecem para você enquanto músico e por que essa combinação se tornou tão adequada à linguagem de Unguilty?
F.R.: De minha experiência pessoal, sempre apreciei a música como algo por si só, e não apenas como algo em segundo plano no meu dia a dia. E, por isso, acabei me inclinando a estilos que transmitem essa atmosfera mais envolvente e até intimista. Encontrei nestas vertentes as influências nas quais eu, como ouvinte e músico, me senti mais bem representado.
Suas músicas carregam tristeza, solidão, ansiedade, nostalgia e uma espécie de desencanto diante da existência, mas nem sempre soam simplesmente "tristes". Existe também certa beleza e até conforto nessa atmosfera cinzenta. Como você enxerga essa relação entre melancolia e conforto dentro da música?
F.R.: É difícil pra mim responder esta questão pois não costumo carregar nenhuma intenção específica quando componho. Não penso em forma de "agora vou compor uma música triste" ou algo assim. Apenas deixo fluir a criatividade e quaisquer sentimentos que surjam ali. O resultado é algo que, até mesmo para mim, pode ser uma surpresa! Por isso, acredito que todas estas interpretações, sensações e sentimentos que surjam na música são apenas a externalização de algo que eu estava sentindo quando estava compondo. E, para mim, esta é uma das partes mais legais em criar arte: ver que cada pessoa terá sua própria impressão e relação com a obra.
Você é responsável por praticamente todo o processo musical da banda e trabalha em seu próprio home studio, sem depender de uma estrutura profissional. O que significa para você manter esse caráter artesanal na produção de Unguilty? E quais são os maiores desafios de transformar uma ideia que nasce dentro de casa em um trabalho com a qualidade sonora que você busca?
F.R.: Uma coisa muito interessante que acontece quando se começa a produzir alguma forma de arte é que, aos poucos, desenvolve-se uma maneira bastante pessoal de produzir. Por isso, no meu caso, onde fui o único integrante deste projeto desde o início, produzir tudo de maneira autônoma se tornou o mais natural para mim. De forma que, num contexto diferente (como, por exemplo, com outros músicos ou num local diferente), o resultado, seguramente, seria diferente. Tão diferente que não se identificaria como o mesmo projeto! Mas, ao mesmo tempo, este formato traz um desafio: como tudo depende de mim, cabe a mim mesmo cumprir com minhas expectativas. Por isso, a evolução e dedicação precisam ter alguma constância, o que nem sempre é possível em meio a rotina do dia à dia.
Três anos se passaram desde Gray. Agora, três singles já começaram a abrir caminho para um novo álbum. Em que momento esse novo trabalho começou a tomar forma e como foi o processo de composição até aqui?
F.R.: Desde o início do projeto, compor é a coisa que mais amo fazer. Por isso, mesmo após o lançamento de Gray, continuei compondo. Assim, no ano seguinte (2024), já contemplava a ideia de dar forma a um novo álbum. Fui reunindo composições novas com algumas antigas que estavam engavetadas até que, no início de 2025, senti que estava pronto para começar as gravações deste novo álbum. Não tive pressa alguma, como pode reparar. Mais de um ano depois, finalmente, o álbum está pronto para o lançamento.
Já existe um título definido para o novo álbum? Se sim, você pode nos contar de onde surgiu esse nome e o que ele representa dentro do conceito da obra?
F.R.: Este álbum se chamará "The Space Between The Heartbeats" e este nome vem de duas ideias: uma referência à um trecho da música "With You Came The Whole Of The World's Tears" da banda finlandesa Swallow The Sun e à uma condição de saúde que tenho que me causa arritmias cardíacas. Não é nada muito sério (nem mesmo realizo alguma forma de tratamento), mas, já me trouxe algumas sensações desagradáveis e que, inclusive, se tornou tema da quinta faixa do álbum.
Gray apresentou uma identidade lírica bastante particular, inclusive com as letras escritas por uma amiga sua. Para este novo álbum, você voltou a trabalhar com alguma parceria na composição das letras ou desta vez assumiu essa parte integralmente?
F.R.: Para este álbum, assumi totalmente a autoria de todos os aspectos de sua produção, inclusive na composição das letras!
E falando especificamente das letras: que temas ou estados emocionais estarão no centro deste novo trabalho? Existe alguma questão que você ainda não havia explorado no Unguilty e que encontrou espaço agora?
F.R.: Escrever as letras para as músicas sempre foi a parte mais difícil para mim. Tenho mais facilidade em compor os instrumentos do que as letras. Mas, sem me apressar nesta produção, consegui trazer temas que tratam sobre traumas passados, temores do futuro e sentimentos ocultos no coração do ser humano. Há, inclusive, uma faixa chamada "Beneath The Abyss" que é inspirada no livro "O Velho e o Mar" do escritor norte-americano Ernest Hemingway, uma obra literária pela qual tenho muito apreço e que se enquadra de maneira muito adequada ao conjunto do álbum.
Os três singles lançados funcionam como uma espécie de primeira janela para o álbum. O quanto eles representam a sonoridade que encontraremos no álbum completo? O ouvinte pode esperar uma continuidade de Gray ou há uma mudança significativa de direção?
F.R.: Escolhi estas três faixas que foram lançadas como singles por me parecerem as mais adequadas a resumir o álbum e trazer uma prévia do que o ouvinte pode esperar. Em comparação com lançamentos anteriores, certamente, é uma novidade. Embora ainda mantenha a identidade que se assumiu neste projeto, a composição e produção me parecem mais primorosas e, por vezes, inovadoras aos padrões da banda.
Unguilty sempre teve uma relação muito forte entre peso e melodia. Neste novo material, essa dinâmica permanece? Houve alguma preocupação em explorar mais o lado Doom, o lado Black Metal ou mesmo as atmosferas mais próximas do DSBM?
F.R.: Existe, sim, essa distribuição ao longo do álbum entre passagens mais densas e agressivas e outras mais leves e melódicas, como tem havido em toda a discografia da banda até aqui. Mas, do meu ponto de vista, ambas as características estão ainda mais acentuadas, de forma que, neste álbum, o ouvinte poderá encontrar o riff mais agressivo que já compus até o momento, seguido pelo mais lento e atmosférico. Essa extensão sonora traz um direcionamento diferente ao álbum, mantendo uma atmosfera sombria e melancólica, ainda que bastante diversa em termos de composição musical.
O baixo ocupa um lugar bastante particular na sua música, especialmente considerando que é seu instrumento favorito. Ele frequentemente não aparece apenas como sustentação das guitarras, mas assume uma presença própria. Houve alguma mudança na maneira como você trabalhou o baixo, ou mesmo outro instrumento, neste novo álbum?
F.R.: O baixo é o instrumento no qual tenho maior domínio e, por isso, gosto de trazer uma presença relevante a ele. Mas, ao mesmo tempo, dou muita relevância ao conjunto da música e busco compor cada instrumento de maneira que soe com coesão. Não dou o estrelato ao vocal, a guitarra ou qualquer instrumento, mas sim, mantenho cada um cumprindo seu papel no conjunto. Neste álbum, o baixo segue nesta lógica, com presença e coesão. Curiosamente, costuma ser o último instrumento que componho para a música!
Outro elemento que chama atenção em Unguilty é o piano. Mesmo quando utilizado de maneira relativamente simples, ele acrescenta uma dimensão quase hipnótica às composições. Qual é a função desse instrumento dentro da sua concepção musical e ele terá um papel importante no novo álbum?
F.R.: No metal extremo, estamos habituados à sonoridade brutal da distorção nas guitarras e no baixo, aos blast beats na bateria, o vocal gutural, etc. Por isso, gosto bastante de trazer o contraste que se encontra na delicadeza de uma guitarra limpa, um vocal falado ou, também, no piano. Neste álbum, este contraste se mantém e o piano surge em diversas passagens, majoritariamente como um aspecto etéreo, na intenção de realçar alguma passagem, alguma virada ou interlúdio, tendo sempre em mente a progressão que constrói a base da música.
Suas guitarras parecem conduzir muito da narrativa das músicas, alternando passagens pesadas e arranjos mais melódicos. Quando você compõe, a melodia costuma surgir primeiro ou a atmosfera e o sentimento que deseja transmitir vêm antes da estrutura musical?
F.R.: Minha abordagem para composição é bastante descontraída: eu sento, uma xícara de café ao lado e a guitarra em mãos, e vou tocando sem pensar muito. Dependendo do dia, a guitarra pode estar plugada e com o drive bastante distorcido, ou, pode estar desligada, apenas com o som limpo e metálico das cordas. Dessa forma, quando surge um riff que gosto, me debruço sobre ele e desenvolvo a ideia. Sendo assim, diria que a melodia e o sentimento surgem de maneira simultânea, um influenciando o outro, colaborando para o desenvolvimento das guitarras e, também, de todos os outros instrumentos.
Existe uma característica muito interessante em Unguilty: apesar de trabalhar com sonoridades pesadas e distorcidas, a produção permanece clara, permitindo perceber guitarras, baixo, bateria e piano sem aquela "parede" sonora excessivamente comprimida. Essa clareza é uma escolha estética consciente?
F.R.: Sem dúvidas! Há uma questão relevante no que se refere a produção musical moderna que é a seguinte: a grande maioria dos músicos e produtores utilizam os mesmos softwares e as mesmas "fórmulas" em suas produções. Por exemplo, se um produtor renomado utiliza um determinado equalizador, logo se verá esse mesmo equalizador sendo utilizado por muitos outros artistas. O que não é um problema — afinal, parece natural que um bom software seja bastante utilizado e que técnicas efetivas de produção sejam popularizadas. Porém, isso pode ocasionar uma certa "artificialidade" às produções, tornando cada vez mais difícil de se ouvir um timbre original num instrumento. Por isso, embora eu também utilize softwares que são populares, busco manter um som mais claro e pouco comprimido, pensando em valorizar o timbre e a produção em cada instrumento e aspecto da música.
Você continua realizando todo esse processo em home studio. Para este álbum, houve alguma mudança no equipamento, na forma de gravação ou na maneira de mixar e produzir?
F.R.: Este é o primeiro álbum em que utilizo minha própria guitarra numa gravação, uma Cort KX300 Etched, que adquiri no final de 2024. Até então, eu sempre precisava recorrer a amigos para me emprestarem guitarras, pois eu não tinha o instrumento. De restante, meu hardware permanece o mesmo do que foi utilizado no restante da discografia, basicamente. Busco sempre me manter atualizado sobre técnicas de mixagem, embora ainda me considere bastante amador neste ofício. Mas, é perceptível que há um grande avanço na qualidade da produção deste álbum se comparado aos anteriores.
Já existe uma previsão concreta para o lançamento do álbum? E você pretende lançá-lo de maneira independente novamente ou haverá algum selo, parceria ou outra estrutura envolvida na divulgação?
F.R.: O álbum será lançado no dia 30 de outubro de 2026, de maneira independente, e deverá estar disponível nas principais plataformas de streaming e no Bandcamp da banda. Infelizmente, ainda não tenho previsão de material físico para o Unguilty, mas é uma ideia que me interessa muito e que deve se concretizar, um dia.
Sem entregar aquilo que você ainda pretende manter em segredo: o que o ouvinte pode esperar dessa nova obra? É um álbum mais sombrio, mais agressivo, mais melódico, mais introspectivo? E existe alguma faixa que você considera especialmente importante dentro do conjunto?
F.R.: Dentre a discografia do Unguilty, eu definiria este álbum como o mais complexo até então. Não exatamente em termos de composição musical, mas sim, de significados. O ouvinte pode esperar desde riffs velozes e agressivos até passagens de introspecção e reflexão, mantendo a característica sonora da banda. Minha faixa favorita é a 7ª, que se chama "Beneath The Abyss". Mas, é comum que minhas faixas favoritas não costumam ser as mais ouvidas após o lançamento! Por isso, também estou ansioso para ver como será a recepção por parte dos ouvintes e quais faixas terão mais destaque.
Para encerrar: depois de três álbuns, uma demo, um EP e agora um novo trabalho prestes a surgir, o que ainda significa fazer Unguilty? O que você procura encontrar quando começa uma nova composição, e o que espera que alguém encontre ao ouvir essa música do outro lado?
F.R.: Fazer música é minha maior paixão e o Unguilty é minha maneira de trazer luz a essa paixão. Se paro para refletir sobre as fases de minha vida que passaram desde que iniciei este projeto, não posso deixar de ficar nostálgico e emotivo. E hoje, cerca de 7 ou 8 anos depois, este projeto segue sendo algo central para mim, seja no momento que for. Poder atingir outras pessoas torna isso ainda mais incrível pois, assim como ocorre comigo ao ouvir outros artistas pelos quais tenho apreço, sei que a música pode impactar grandemente a vida das pessoas. E espero que, com o Unguilty, este impacto possa ser tão intenso quanto foi para mim escrever essas músicas.
Considerações finais.
F.R.: Agradeço muito ao DSBM Brazil e ao Lúgubre por essa oportunidade de falar sobre meu novo lançamento e pelo trabalho que fazem pelo underground. Deixo aqui o convite a todos que se interessam pelo metal atmosférico e desejem prestigiar o underground brasileiro a ouvirem, no fim de outubro, o novo álbum do Unguilty.
A conversa termina aqui, mas a jornada de Unguilty continua. O novo álbum ainda guarda parte de seus caminhos, atmosferas e silêncios, e talvez seja justamente essa espera que torne sua chegada ainda mais interessante. Se a música do projeto encontrou algum espaço dentro de você, acompanhe Unguilty em suas redes sociais e plataformas oficiais. Conheça os trabalhos anteriores, ouça os singles já lançados e permaneça por perto para descobrir o que F.R. está preparando para o próximo capítulo. Porque algumas músicas não pedem pressa. Apenas pedem que você permaneça tempo suficiente para ouvi-las até o fim.



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