sábado, 19 de setembro de 2026

A insônia dos que tecem com suas entranhas

 Há algo de particularmente significativo quando uma obra nasce antes de qualquer pretensão formal de ser uma obra. 'A insônia dos que tecem com suas entranhas' surge desse lugar: de conversas entre artistas que já transitavam pela cena brasileira de música depressiva e que encontraram, em um grupo informal de mensagens, não apenas interlocução, mas uma possibilidade concreta de criação coletiva.

O resultado é um Split que merece ser observado para além da lógica habitual das coletâneas entre artistas musicais. Não se trata simplesmente de reunir bandas que compartilham uma estética ou um segmento musical. Há aqui um princípio de pertencimento. A música depressiva funciona simultaneamente como linguagem, território e ponto de encontro — uma gramática comum para artistas interessados em elaborar, através do som, experiências relacionadas à solidão, à impermanência, à ausência e ao desconforto de existir. Essa dimensão comunitária é fundamental para compreender o material sonoro. A própria construção do projeto, marcada pela participação coletiva em decisões como título, identidade visual e curadoria estética, reproduz na forma aquilo que a obra expressa em conteúdo. Não há uma tentativa de diluir as individualidades dos participantes; ao contrário, a coletânea encontra sua coerência justamente na convivência entre diferentes vozes.



A escolha de Heráclito, o Filósofo Pranteador, de Johannes Paulus Moreelse, é talvez o gesto conceitual mais eloquente deste material. A pintura de 1630 apresenta Heráclito de Éfeso em sua tradicional associação com o filósofo que chora diante da condição humana. Ao contemplar o globo terrestre, a figura estabelece uma relação direta com a tradição barroca da Vanitas: a lembrança permanente de que tudo aquilo que existe está submetido à passagem do tempo, à decadência e à morte. A imagem não funciona, portanto, como mera decoração para um álbum de atmosfera melancólica. Ela fornece uma chave de leitura. O filósofo contempla o mundo e lamenta sua condição; os músicos contemporâneos fazem algo semelhante, mas substituem a contemplação silenciosa pela elaboração sonora. Séculos separam essas manifestações, mas o desconforto fundamental permanece reconhecível.


E é nesse encontro entre filosofia, pintura e música que o título dessa obra, que reúne as bandas Nattag, Neural Oestridae, Antissocial, Unguilty, Rêveries Fragmentadas, Autodestrutivo, DeadSad e Flâneur, ganha sua verdadeira dimensão. A matéria-prima é o próprio sujeito. 'A insônia dos que tecem com suas entranhas' é um título deliberadamente excessivo — e justamente por isso adequado ao universo que pretende representar. A imagem do indivíduo que "tece com suas entranhas" sugere uma criação que não acontece a partir de uma matéria exterior, mas do próprio corpo e da própria experiência. Compor passa a significar retirar algo de si, manipular essa matéria dolorosa e devolvê-la ao mundo sob a forma de música. A insônia, por sua vez, introduz uma dimensão temporal particularmente interessante. É o estado em que o corpo deseja repousar, mas a consciência permanece em atividade. A madrugada transforma-se em território de ruminação, memória e confrontação consigo mesmo. O título sintetiza, assim, duas dimensões do projeto: a criação como ferida e a vigília como condição existencial.



Se existe uma ideia capaz de atravessar conceitualmente a obra, ela é a noção heraclítica de fluxo. O conhecido princípio associado a Heráclito — Panta Rhei, "tudo flui" — encontra uma correspondência particularmente fértil na música depressiva. A dor não é estática. Ela se desloca, muda de intensidade, assume novas formas e frequentemente retorna transformada. Nesse sentido, as faixas do Split podem ser compreendidas como registros momentâneos desse movimento. A experiência da ausência não é apresentada como uma entidade fixa. O sofrimento também se transforma. O indivíduo que sofre hoje já não é exatamente aquele que sofreu ontem. Da mesma maneira, aquilo que uma composição registra é necessariamente provisório: uma fotografia sonora de um sujeito em determinado ponto de seu percurso. A famosa imagem do rio torna-se, aqui, quase inevitável. Entrar novamente na mesma água é impossível porque o rio mudou — mas também porque aquele que retorna já não é o mesmo. O Split parece compreender intuitivamente esse princípio. Seu mérito está menos em tentar definir a dor do que em registrar suas mutações.


Um dos riscos inerentes a qualquer coletânea reunindo diversos artistas é a homogeneização. Quando artistas são reunidos sob uma mesma classificação, existe sempre a possibilidade de que suas diferenças sejam sacrificadas em favor de uma identidade comum. Aqui ocorre o contrário. A identidade de cada participante permanece perceptível, enquanto a unidade surge de uma convergência temática e emocional. O álbum funciona, portanto, como um mosaico: as peças não precisam possuir a mesma textura para formar uma imagem coerente. Essa diversidade é especialmente importante dentro de uma cena como a música depressiva, frequentemente reduzida, por observadores externos, a uma estética única de tristeza. A coletânea demonstra que há diferentes maneiras de elaborar musicalmente a experiência da melancolia. O que une esses artistas não é necessariamente a forma como soam, mas aquilo que procuram dizer através do som.


Outro aspecto que confere relevância ao projeto é sua recusa — ou ao menos sua resistência — à necessidade de transformar sofrimento em uma narrativa de superação convencional. Não há obrigação de que a arte produza respostas. Tampouco é necessário que uma obra sobre a dor termine em redenção. A honestidade de 'A insônia dos que tecem com suas entranhas' está justamente em permitir que a melancolia permaneça melancolia. A música não precisa solucionar a existência para justificar sua existência. Isso não significa glorificar o sofrimento. Significa reconhecer sua complexidade e conceder à experiência dolorosa um espaço de expressão que não dependa de uma conclusão edificante. A arte, nesse contexto, não aparece como cura universal, mas como ferramenta de elaboração. E essa distinção é importante.


Talvez a maior contribuição deste material esteja justamente fora de suas próprias faixas. Ao registrar uma experiência de colaboração entre artistas da cena depressiva brasileira, o projeto documenta uma forma de sociabilidade artística que frequentemente permanece invisível. Antes de existir como produto fonográfico, o trabalho existiu como diálogo, amizade, troca e apoio. O Split torna audível essa rede. Por isso, sua importância não deve ser medida apenas por critérios tradicionais de produção musical. 'A insônia dos que tecem com suas entranhas' é também um documento de comunidade: um registro de artistas que encontraram, em uma linguagem marcada pela dor, uma possibilidade de encontro. Há algo de paradoxal nisso. Uma música frequentemente associada ao isolamento torna-se, neste caso, instrumento de aproximação.


'A insônia dos que tecem com suas entranhas' é uma obra que entende a música depressiva não como simples exercício de atmosfera, mas como linguagem para pensar a condição humana. Sua força está na convergência entre conceito e experiência: o título, a pintura de Moreelse, a referência a Heráclito, a estética musical e o próprio processo coletivo de produção apontam para a mesma questão — a consciência de que existir é estar permanentemente submetido à transformação.


Nada permanece.
Nem o mundo, nem a dor, nem aqueles que a experimentam.

Se o filósofo pranteador contempla o mundo diante da inevitabilidade de sua transitoriedade, os artistas deste Split respondem com aquilo que sabem fazer: transformam a inquietação em som. E talvez seja justamente essa a imagem que melhor define o projeto.


Enquanto tudo flui, eles continuam tecendo. Não com fios seguros ou matérias nobres, mas com aquilo que têm à disposição: memória, ausência, amizade, melancolia e as próprias entranhas.


O SPLIT está disponível de forma íntegra e gratuita no:

Nenhum comentário:

Postar um comentário